Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 9)
Voltando-se no altar para dar a bênção, as mãos levantadas, o sacerdote viu as beatas a resmungarem: ali estava a perturbação, o maligno, ah!, bocas de lama e maldade, ah!, fedidas e azedas donzelices, mesquinhas e cúpidas solteironas, e a comandá-las dona Rozilda, “Deus que as perdoe, pois infinita é sua bondade!”.
– A pobrezinha sofreu na mão dele. Comeu o pão que o diabo amassou…
– Porque quis. Não por falta de conselho meu… Não fosse tão assanhada, tivesse me ouvido… Fiz o que estava em minhas mãos…
Perorava assim dona Rozilda, mãe de dona Flor, nascida para madrasta, tentando com denodo cumprir sua vocação.
– Mas ela estava com o bicho-carpinteiro, estava de pito aceso, Deus me livre, não quis ouvir nada, se revoltou… E encontrou quem apoiasse, casa para se esconder…
Disse e olhou para o lado onde rezava dona Lita, sua irmã, ajoelhada. Completou:
– Mandar dizer missa por aquele traste é jogar dinheiro fora, é só para encher o bandulho do frade…
D. Clemente tomou do turíbulo e lançou incenso contra o fétido hálito do demônio a respirar pela boca das beatas. Desceu do altar, parou ante dona Flor, colocou-lhe a mão afetuosa sobre o ombro, disse para ser ouvido pelo coro sinistro das velhas peçonhentas:
– Mesmo os anjos transviados têm seu assento ao lado de Deus, em sua glória.
– Anjo… T’esconjuro… Era um demônio do inferno… – rosnou dona Rozilda.
D. Clemente, o dorso um pouco curvado, atravessou a nave, a caminho da sacristia. No corredor, deteve-se a contemplar aquela estranha imagem onde o artista desconhecido fixara a um só tempo a graça e o cinismo. Levado por que sentimentos o fizera, que espécie de mensagem desejara transmitir? Possuído pelas paixões humanas, o anjo devorava com olhos devassos a pobre santa. Olhos de frete, como dissera Vadinho em sua linguagem pitoresca, sorriso indecente, face deslavada, sem compostura. Igual a Vadinho, tanta parecença jamais se vira. Não exagerara ele, d. Clemente, não fizera uma afirmação precipitada ao colocar Vadinho ao lado de Deus, em sua glória?
Aproximou-se da janela rasgada na pedra, fitou o pátio do convento. Ali Vadinho costumava sentar-se sobre a muralha, a seus pés o mar cortado de saveiros. Vadinho dizia:
– Padre, se Deus quisesse mostrar mesmo sua capacidade, fazia o 17 dar doze vezes seguidas. Isso é que era um milagre retado. Aí eu chegava e enchia essa igreja toda de flores…
– Deus não se mete em jogo, meu filho…
– Então, padre, ele não sabe o que é bom e o que é ruim. Aquela agonia de ver a bolinha girando, girando na roleta, a gente arriscando a última ficha, o coração disparado…
E num tom de confidência, num segredo só dele e do sacerdote:
– Como Deus não vai saber, padre?
No átrio, dona Rozilda elevava a voz:
– Dinheiro jogado fora… Não há missa que salve o desgraçado. Deus é justo!
Dona Flor, o xale a esconder-lhe a dolorosa face, surgia, ao fundo, apoiava-se em dona Gisa e em dona Norma. Na claridade azul da manhã, a igreja parecia um barco de pedra a navegar.
2
Só na terça-feira de Carnaval, à noite, a notícia da morte de Vadinho alcançara Nazaré das Farinhas onde dona Rozilda habitava em companhia do filho casado e funcionário da estrada de ferro, amargurando a vida da nora, escrava a seu mando ditatorial. Sem perder tempo, transportou-se para a Bahia na Quarta-feira de Cinzas, um dia parecido com ela, a acreditar-se em outro genro seu, Antônio Morais: “Aquilo não é uma mulher, é uma Quarta-feira de Cinzas, termina com a alegria de qualquer um”. O desejo de situar a maior distância possível entre sua casa e sua sogra era, sem dúvida, um dos motivos por que esse Morais residia, há vários anos, num subúrbio do Rio de Janeiro. Hábil mecânico, aceitou o convite de um amigo e fora tentar a vida no sul, onde prosperara. Recusava-se a voltar à Bahia mesmo a passeio enquanto “a megera empestasse o ambiente”.
Dona Rozilda, no entanto, não detestava Antônio Morais como não detestava tampouco a nora. Detestava, sim, a Vadinho, e jamais perdoara a Flor aquele casamento, resultado de vil conspiração contra sua autoridade e suas decisões. No casamento de Morais com Rosália, a filha mais velha, se não fizera gosto, tampouco dificultara o namoro, não opusera objeções ao noivado. Não se dava bem com ele ou com a nora, porque a natureza de dona Rozilda era mesmo consagrada a infernar o próximo. Quando não estava contrariando alguém, sentia-se vazia e infeliz.
Com Vadinho era diferente: tinha-lhe aversão desde os tempos do namoro com Flor, quando descobrira a rede de logros e engodos em que a enleara o indesejável pretendente. Tomara-lhe ódio para sempre, não podia ouvir-lhe sequer o nome. “Houvesse polícia nesta terra e aquele canalha estaria na cadeia”, repetia, se lhe falavam no genro, se lhe pediam notícias do valdevinos ou mandavam-lhe lembranças.
Quando visitava dona Flor, de raro em raro, era para infernar-lhe o dia, não tendo outro assunto senão as trampolinagens de Vadinho, sua existência libertina, sua vergonhosa crônica, escândalo cotidiano e permanente.
Ainda da amurada do navio desatava a boca de azedumes aos gritos para dona Norma no cais da Bahiana a esperá-la, a pedido de dona Flor:
– Enfim o excomungado bateu as botas, hein!
O paquete estava atracando, repleto de uma impaciente população de viajantes atravancados de pacotes, de cestas, de sacolas, de embrulhos os mais diversos, contendo frutas, farinha de mandioca, inhame e aipim, carne-de-sol, chuchu e abóboras. Dona Rozilda desembarcava a vociferar:
– Levou a breca, já devia ter estourado há muito tempo!
Dona Norma sentia-se derrotada, dona Rozilda possuía aquela capacidade de deixá-la sem ação, num desânimo completo. Amanhecera a prestativa vizinha no pequeno cais, transpirando consolação no rosto bondoso, pronta para animar uma sogra em luto e em lágrimas, para em dueto lastimarem a precariedade das coisas desse mundo: hoje se está vivo e saltitante, amanhã num caixão de defuntos. Recolheria as lamúrias de dona Rozilda, servir-lhe-ia o lenitivo da resignação à vontade de Deus, ele sabe o que faz!; juntas debateriam, a mãe e a amiga íntima, a propósito da nova condição de dona Flor, viúva, só no mundo e ainda tão jovem. Para isso viera dona Norma preparada: gestos, palavras, atitudes, e tudo sincero e sentido, não havia jamais em sua maneira de ser e agir a menor parcela de representação. Dona Norma sentia-se um pouco responsável por todo mundo, era a providência do bairro, uma espécie de pronto-socorro das imediações. De toda a vizinhança acudiam à porta de sua casa – a melhor casa da rua, só a dos argentinos da fábrica de cerâmica, a dos Bernabós, podia com ela comparar-se, talvez um pouco mais luxuosa – , vinham por empréstimos, do sal e da pimenta à louça para almoços e jantares e a peças de vestuário para festas:
– Dona Norma, mamãe mandou perguntar se a senhora podia emprestar uma xícara de farinha-do-reino que é para um bolo que ela está fazendo. Depois manda pagar…
Era Aninha, a filha mais jovem do dr. Ives, vizinho próximo, cuja esposa, dona Êmina, cantava canções árabes acompanhando-se ao piano.
– Mas, menina, sua mãe não foi ao mercado ontem? Eta!, mulher mais esquecida… Uma xícara basta? Diga a ela que, se quiser mais, mande buscar…
Ou bem era o moleque da residência de dona Amélia, com sua voz esganiçada:
– Dona Norma, a patroa mandou pedir a gravata preta de seu Sampaio, a de laço de borboleta, que a de seu Ruas a traça roeu…
Quando não aparecia dona Risoleta, dramática, com seu ar de macerada:
– Norminha, acuda pelo amor de Deus…
– O que é, mulher?
– Um bêbado se plantou na porta de casa, não há jeito de sair, o que é que eu vou fazer?
Lá ia dona Norma, reconhecia sorridente:
– Ora, é Bastião Cachaça, gente minha… Vam’bora, Bastião, saia daí, vá tirar uma soneca na garagem lá de casa…
E assim o dia inteiro, bilhetes pedindo dinheiro emprestado, chamado urgente para acudir um doido, atender um enfermo, e os fregueses das injeções – dona Norma fazia concorrência gratuita aos médicos e às farmácias, sem falar nos veterinários pois todas as gatas das cercanias vinham dar cria nos fundos de sua casa, ali não lhes faltando jamais assistência e alimento. Distribuía amostras de remédios – fornecidas pelo dr. Ives – , cortava vestidos e moldes – era diplomada em corte e costura – , escrevia cartas para o pessoal doméstico, dava conselhos, ouvia lamentações, secundava projetos matrimoniais, chocava namoros, resolvia os mais diferentes problemas, sempre alvoroçada, levando Zé Sampaio a concluir:
– É uma caga voando, não tem paciência nem para sentar no aparelho… – e metia o dedo grande na boca, resignado.
Preparara-se a boa vizinha para acolher uma lastimosa dona Rozilda, em seu peito a abrigar e confortar. E a outra lhe saía com aquele contra-senso absurdo, como se a morte do genro fosse notícia festiva. Lá vinha ela descendo a escada, numa das mãos o clássico embrulho de farinha de Nazaré, bem torrada e olorosa, além de uma cesta onde se movia indócil uma corda de caranguejos adquirida a bordo; na outra a sombrinha e a maleta. Ainda bem, pensou dona Norma, não era a mala grande indicativa de demora, era o pequeno baú de madeira das viagens rápidas, uns poucos dias e até outra. Adiantou-se para ajudá-la e para dar-lhe o cerimonioso abraço de pêsames, por nada no mundo deixaria de cumprir o triste dever das condolências.