Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 11)
De nada adiantavam os esforços de dona Rozilda na direção das amizades influentes: a família Costa, descendente de velho político, dona de imensa roça no Matatu – o político virara até nome de rua e o neto Nilson era banqueiro e industrial; os Marinho Falcão, de Feira de Santana, em cujo armazém Gil fizera seu aprendizado quando jovem – fora seu João Marinho quem lhe emprestara dinheiro para iniciar-se na capital; o dr. Luís Henrique Dias Tavares, diretor de repartição, um cabeça de ouro, assinava artigos nos jornais, nome sonoro a rolar em sua boca com um gosto de parentesco: “É meu compadre, batizou o meu Heitor”.
Ao citar tais relações de categoria, espinafrando as de Gil, interrogava dramática os interlocutores, a vizinhança, a ladeira, a cidade e o mundo: que mal fizera ela a Deus para merecer o castigo daquele esposo, incapaz de dar-lhe padrão de vida condigno, à altura de sua linhagem e de seu meio? Tudo quanto era representante comercial prosperava, ampliando freguesia e escritório, vendo crescer o montante mensal das vendas, conseguindo novas e valiosas corretagens. Muitos compravam casa própria, quando nada terreno onde mais tarde construir. Alguns davam-se até ao luxo do automóvel, como um conhecido deles, Rosalvo Medeiros, alagoano arribado de Maceió há poucos anos, as mãos uma na frente, outra atrás, ambas agora na direção de um Studebaker. Tão lorde ficara esse Rosalvo a ponto de, certo dia, indo pela rua Chile, não reconhecer dona Rozilda e quase a atropelar, quando ela, pedestre e amável, atirou-se na frente do carro na ânsia de cumprimentar o próspero colega do marido. Não só o sujeito lhe metera um susto medonho com o ruído da buzina desatada como ainda a xingara, gritando-lhe desaforos:
– Quer morrer, piolho-de-cobra?
Em três ou quatro anos, com produtos farmacêuticos, lábia e simpatia, esse grosseirão obtivera automóvel, era sócio do Bahiano de Tênis, íntimo de políticos e ricaços, um fidalgo, meus senhores, cheio de empáfia, o rei na barriga! Dona Rozilda rangia os dentes, e o toleirão do Gil?
Ah!, Gil vegetava a pé ou de bonde, com suas amostras de atilhos, suspensórios, colarinhos e punhos duros, especialista em produtos fora de moda, reduzido a uma pequena freguesia de lojas suburbanas, de antiquados armarinhos. Não saía disso, marcando passo a vida inteira. Ninguém acreditava em sua capacidade, nem ele próprio.
Um dia cansou-se de tanta queixa e reclamação, de tanto se esforçar sem resultado nem alegria. Porto, cunhado de sua mulher, marido de Lita, irmã de Rozilda, dava ele também um murro safado para viver, ensinando desenho e matemática a rapazes num estabelecimento estadual para artesãos, nas lonjuras de Paripe. De trem, todos os dias, de manhã cedinho, levantando-se com o sol, regressando ao fim da tarde. Mas aos domingos, saía pelas ruas da cidade com uma caixa de tintas e pincéis a pintar coloridos casarios e tirava daquela ocupação tanta alegria a ponto de jamais ter sido visto de mau humor ou melancólico. Também casara-se com Lita e não com Rozilda, e Lita, o oposto da irmã, era uma santa mulher, cuja boca jamais se abrira para falar mal de vivente ou criatura.
Gil nem mesmo no jogo de damas ou de gamão obtinha progressos, e Antenor Lima só o aceitava de parceiro quando outro mais forte não aparecia; quanto a seu Zeca Serra, campeão da ladeira, nem assim, nem para matar o tempo – não tinha graça disputar com tabuleiro tão medíocre, descuidado e desatento. E ainda por cima dona Rozilda exigira sua definitiva ruptura com Cazuza Funil, quando o amigo – muito por baixo, recém-saído do xilindró, perseguido e processado como contraventor – mais carecia de solidariedade. E ele, Gil, calhorda completo, cortava esquinas para evitá-lo, submisso às ordens da esposa.
Concluiu de nada adiantar sua sacrificada labuta, aproveitou uns dias de inverno mais úmido para adquirir uma pneumonia barata – “nem sequer uma pneumonia dupla”, ironizou dr. Carlos Passos – e emigrou para o astral. Silenciosamente, numa tosse discreta e tímida. Fosse outro e poderia ter escapado, ter vencido a doença, pouco mais do que uma gripe. Gil, porém, estava cansado, tão cansado!, não se dispunha a esperar doença séria e grave. Além do mais, não tinha ilusões: doença de qualidade, importante, moléstia da moda, cara, falada nos jornais, não chegaria para ele, o melhor era mesmo contentar-se com sua mesquinha pneumonia. Assim o fez e, sem se despedir, faltou com o corpo, descansou.
4
De há muito dona Rozilda controlava com mão de ferro o parco dinheiro das comissões, entregando semanalmente ao representante comercial os estritos níqueis para o bonde e para o maço de cigarros Aromáticos – um maço cada dois dias. Pois, ainda assim, o dinheiro economizado mal deu para as despesas do enterro, das roupas de luto, para os dias de nojo. Comissões a receber das últimas vendas, quase não existiam, uma ridicularia, e dona Rozilda viu-se com o filho rapazola e ginasiano e as duas filhas mocinhas – Flor apenas adolescente – e sem fonte de renda.
Nem por ser ela quem era, agre e desabrida, de convivência desagradável e difícil, nem por isso devem-se negar ou esconder suas qualidades positivas, sua decisão e força de vontade, e tudo quanto fez para completar a criação dos filhos e para manter-se pelo menos na posição onde a deixara a morte do marido, sem rolar ladeira do Alvo abaixo para os cantos de rua ou para os sórdidos quartos dos casarões do Pelourinho.
Agarrou-se ao sobrado com toda sua violenta obstinação. Mudar-se dali para moradia mais barata significava o término de todas as suas esperanças de ascensão social. Precisava manter Heitor nos estudos até o fim do curso secundário, empregá-lo depois, e casar as meninas, casá-las bem. Para isso era preciso não descer, não deixar-se arrastar pela pobreza sem máscara, exposta e despudorada, sem pejo nem vergonha. Ela, dona Rozilda, sentia vergonha da pobreza, ah!, muita vergonha, como de um delito a merecer castigo.
Tinha de permanecer no andar da ladeira do Alvo, custasse o que custasse. Assim explicou ao cunhado quando ele viera emprestar-lhe as economias de dona Lita (pagas depois por dona Rozilda, tostão a tostão, diga-se em sua honra). Nem casa de preço razoável no fim do mundo da Plataforma, nem porão habitável na Lapinha, nem quarto e sala sublocados nas Portas do Carmo; manteve-se plantada na ladeira do Alvo, no sobrado de aluguel relativamente elevado, sobretudo para quem, como ela, não dispunha de posses, nem muitas nem poucas.
Dali, das sacadas amplas do primeiro andar, podia olhar o futuro com confiança: nem tudo estava perdido. Modificaria os planos anteriores sem desistir de suas pretensões. Se de imediato cedesse, largando a casa bem-posta, mobiliada, com tapetes e cortinas, indo para um cortiço qualquer, já não lhe seriam permitidas sequer esperanças e ilusões. Veria Heitor atrás de um balcão de secos e molhados, quando muito de uma loja, caixeirinho a vida inteira; veria as meninas com idêntico destino, se não fossem terminar garçonetes de bares ou cafés, no frete dos patrões e dos fregueses, caminho direto para a zona, para o horror das ruas de mulheres-damas. Dali, do sobrado, podia resistir a todas essas ameaças. Abandoná-lo era como render-se sem luta.
Por isso recusou oferta de emprego de balconista para Heitor, arranjado por Antenor Lima. Assim como não admitiu sequer discutir com Rosália, quando a filha lhe apareceu disposta a trabalhar, como uma espécie de recepcionista e secretária, na Foto Elegante, florescente estabelecimento da Baixa dos Sapateiros, onde Andrés Gutiérrez, espanhol moreno e de bigodinho recortado, explorava a arte fotográfica em suas mais diversas modalidades: desde os instantâneos três por quatro, para carteiras de identidade e profissionais (“entrega em vinte e quatro horas”), até as “incomparáveis ampliações coloridas, verdadeiras maravilhas”, passando pelos retratos dos mais diversos tamanhos e pelos flagrantes de batizados, matrimônios, primeiras comunhões e outros festivos eventos, dignos da amarelecida eternidade dos álbuns familiares. Onde houvesse uma fotografia a fazer, lá surgia Andrés Gutiérrez com sua máquina e seu ajudante, um chinês sem idade de tão velho, encarquilhado e suspeito. Rumores circulavam – haviam chegado aos ouvidos de dona Rozilda, sempre aguçados para esses falatórios – sobre Andrés, sua Foto Elegante, seu ajudante e a amplitude do negócio. Diziam ser de sua produção certos postais vendidos pelo chinês em envelopes fechados, supra-sumo da arte naturalista, “nus artísticos” de garantido sucesso. Para tais fotos, segundo as comadres, posavam mocinhas pobres e fáceis, em troca de uns magros mil-réis. De passagem, usufruía delas certamente Andrés, e, quem sabe?, o chinês; as beatas contavam horrores a propósito do atelier de fotografia. Não é de admirar ter dona Rozilda corrido com a filha, quando ela, entusiasmada e ingênua, lhe revelou a oferta do espanhol:
– Se me falar nisso outra vez, te arranco o couro, te dou uma surra de criar bicho…
A Andrés ameaçou com cadeia, atirando-lhe às fuças todo seu círculo de relações de prestígio: fosse se meter com sua filha e veria o resultado, galego porco de uma figa; com suas imundícies, sua devassidão; ela, dona Rozilda, iria à polícia…