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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 10)

18

– Meus pêsames…

– Pêsames? A mim? Não, minha cara, não desperdice sua civilidade. Por mim, já podia ter esticado há muito tempo, não sinto a falta. Agora posso bater no peito e dizer de novo que na minha família não tem desclassificado nenhum. E que vergonha, hein? Escolheu para morrer no meio do Carnaval, vestido de máscara… de propósito…

Parava ante dona Norma, descansava a maleta, a cesta e o pacote no chão para melhor examinar a outra, medi-la de alto a baixo, e dizer-lhe, num elogio velhaco:

– Pois, sim senhora… Não é para lhe gabar mas vosmicê engordou um bocado… Está bonitona, moderna, gorda de fazer gosto, benza-te Deus e te livre de mau-olhado…

Ajeitava a cesta de onde os caranguejos tentavam fugir, persistia renitente:

– Assim é que eu gosto: mulher que não liga para besteiras de moda… Essas que andam por aí fazendo regime para emagrecer, termina tudo tísica… Vosmicê…

– Não diga isso, dona Rozilda. E eu que pensei que estava mais magra… Fique sabendo que estou gramando um regime daqueles brabos… Cortei o jantar, tem um mês que não sei o gosto de feijão…

Dona Rozilda voltou a considerá-la com olho crítico:

– Pois não parece…

Ajudada por dona Norma, recuperou os embrulhos; embicavam para o Elevador Lacerda, dona Rozilda a matracar:

– E seu Sampaio? Sempre metido na cama? Nunca vi homem mais sem graça. Parece um cachorro velho…

Dona Norma não gostou da comparação, sorriu num protesto:

– É o gênio dele que é assim mesmo… Esmorecido…

Dona Rozilda não era mulher de desculpar as fraquezas humanas:

– T’esconjuro… Um marido enganjento como o seu deve ser um castigo. O meu… o finado Gil… Bem, não vou dizer que valesse grande coisa, não era nenhum santo… Mas, em comparação com o seu… Ah!, minha filha, eu lhe digo: se fosse eu não tolerava não… Um homem que não sai, não vai a parte nenhuma, emborcado, dentro de casa…

Dona Norma tentava repor a conversa na sua trilha lógica: afinal dona Rozilda perdera um genro, por isso viajara à capital, sobre tão palpitante e dramático assunto deviam discorrer, para tanto estava dona Norma preparada:

– Flor anda muito triste e abatida. Sentiu demais…

– Porque é uma pamonha, uma toleirona. Sempre foi, nem parece minha filha. Saiu ao pai, vosmicê não conheceu o finado Gil. Não é para me elevar, não, mas o homem da casa era eu. Ele não piava nem mugia, quem resolvia tudo era essa sua criada. Flor puxou a ele, saiu molengas, sem vontade; senão, como ia agüentar tanto tempo o tal de marido que arranjou?

Dona Norma considerou para si mesma que, se o finado Gil não fosse ele também um banana, um molengas sem vontade, certamente não teria suportado por muito tempo tal esposa, e lastimou a sorte do pai de dona Flor. E a de dona Flor, agora ameaçada de constantes visitas da mãe, capaz até – quem sabe? – de vir residir com a filha viúva, corrompendo a atmosfera cordial do Sodré e redondezas.

No tempo de Vadinho, quando dona Rozilda aparecia era às carreiras, em rápidas passagens, o indispensável para falar mal do genro e empreender o caminho de volta antes do maldito surgir com suas graçolas de mau gosto. Porque com Vadinho, dona Rozilda nunca levara vantagem, jamais o dominara, nem sequer conseguia deixá-lo nervoso e irritado. Apenas a enxergava a cochichar, era tomado de riso, demonstrando a maior satisfação, como se a sogra fosse sua visita preferida, o pulha:

– Olhe quem está aí: minha santa sogrinha, minha segunda mãe, esse coração de ouro, essa pomba sem fel. E a lingüinha, como vai, bem afiada? Sente aqui, minha santa, junto de seu genrinho querido; vamos vasculhar o lixo da Bahia…

E ria aquela sua risada sonora e alegre de homem ladino e satisfeito com a vida: se tanto título a vencer e tanta dívida espalhada, tanta apertura de dinheiro e tanta urgência de numerário para as apostas não conseguiam entristecê-lo nem exasperá-lo, como poderia dona Rozilda alimentar esperanças? Por isso o odiava, e pelo que ele lhe fizera nos primeiros tempos do namoro.

Numa rabanada raivosa abandonava o campo de batalha, tangida pelo riso de Vadinho, ia vingar-se em dona Flor, acusando-a rua afora, em agitados comícios:

– Nunca mais ponho os pés nessa casa, filha amaldiçoada! Fique com o cachorro de seu marido, deixe que ele insulte sua mãe, esqueça o leite que mamou… Vou embora antes que ele me bata… Não sou igual a você que gosta de apanhar…

Com a risada de Vadinho a persegui-la pelas esquinas, estourando nos becos, gaitada de mofa – dona Rozilda perdia a cabeça. Uma vez a perdeu por completo; esquecida de sua condição de senhora viúva e recatada, deteve-se na rua cheia de gente e, voltando-se para a janela onde o genro se torcia de rir, descascou-lhe, com o braço nu, uma penca, se não todo um cacho de bananas. Acompanhava o gesto grosseiro com pragas e insultos, a voz estrangulada:

– Tome seu sujo, seu indecente, tome e meta…

Escandalizavam-se os passantes, o grave professor Epaminondas, a pulcra dona Gisa:

– Mulher mais sem compostura…– criticava o professor.

– É uma histérica… – definia a professora.

Apesar de bem conhecer dona Rozilda, testemunha que fora daquele e de outros furores, familiar de seu caráter difícil, de seu congênito azedume, ainda assim, na fila do elevador, tornava dona Norma a surpreender-se. Nunca imaginara pudesse perdurar a quizília entre a sogra e o genro mais além da morte, não concedendo dona Rozilda ao finado sequer uma palavra de lamentação, mesmo vazia de sentimento, puramente formal, da boca para fora. Nem isso:

– Até o ar que se respira aqui ficou mais leve depois que o desgraçado esticou a canela…

Dona Norma não pôde conter-se:

– Puxa! A senhora tinha mesmo raiva de Vadinho, hein?

– Oxente! E não era para ter? Um vagabundo sem eira nem beira, pau-d’água, jogador, não valia de nada… E se meteu na minha família, virou a cabeça de minha filha, tirou a desinfeliz de casa pra viver às custas dela…

Jogador, cachaceiro, vagabundo, mau marido, era tudo verdade, considerou, pensativa, dona Norma. Como odiar, no entanto, mais além da morte? Não se deve, no carrego dos defuntos, varrer e enterrar os ressentimentos e as discórdias? Não era essa a opinião de dona Rozilda:

– Me chamava de velha xereta, nunca me respeitou, ria nas minhas bochechas… Me enganou quando me conheceu, me fez de boba, me arrastou na rua da amargura… Por que hei de me esquecer, só porque está morto no cemitério? Só por isso?

3

Ao partir desta para melhor, o relembrado Gil, o tal molengas sem vontade, deixou a família em sérias aperturas, em precária situação. No seu caso não se tratava apenas de uma frase feita – “partiu desta para melhor” – , de um lugar-comum; e, sim, da expressão da verdade. Fosse o que fosse a esperá-lo nos mistérios do além – paraíso de luz, de música e anjos luminosos; tenebroso inferno com caldeirões a ferver; o úmido limbo; as peregrinações pelos círculos siderais; ou o nada, o não-ser apenas – qualquer coisa seria melhor se comparada à vida em comum com dona Rozilda.

Magro e silencioso, cada dia mais magro e mais silencioso, seu Gil sustentava sua tribo com modestas representações comerciais, produtos de reduzida aceitação, parco lucro apenas suficiente para as despesas: a gororoba diária, o aluguel do primeiro andar na ladeira do Alvo, as roupas dos meninos, os arrotos de burguesia de dona Rozilda com seus caprichos de grandeza, a ambição de conviver com famílias importantes, de penetrar nos círculos de gente apatacada. Embirrava dona Rozilda com a maioria dos vizinhos, desprotegidos da sorte – balconistas de lojas e armazéns, empregados de escritório, caixeiros e costureiras. Desprezava essa gentalha incapaz de esconder sua pobreza; dava-se ares, carregada de bazófia, atenciosa apenas com alguns habitantes da ladeira, as “famílias de representação” como repetia irada ao finado Gil quando o pegava em flagrante chupitando uma cervejinha na pouco recomendável companhia de Cazuza Funil, bicheiro e facadista, metido a filósofo, um dos mais discutíveis locatários do Alvo. Funil não era nome de família, será necessário esclarecer? Apenas significativo apodo, caracterizando-lhe a goela sempre aberta, a sede insaciável.

Por que Gil não freqüentava o dr. Carlos Passos, médico de clientela, o engenheiro Vale, mandachuva na Secretaria de Viação, o telegrafista Peixoto, senhor de idade, às vésperas da aposentadoria, tendo alcançado o cume da carreira postal, o jornalista Nacife, ainda moço mas arrecadando um dinheirinho apreciável com O Lojista Moderno, publicação dedicada, a acreditar-se em seu expediente, “à intransigente defesa do comércio baiano”, todos eles igualmente vizinhos na ladeira, os “de representação”? O parvo do marido não sabia sequer escolher suas amizades; quando não estava com Funil no Ponto Fino, na Baixa dos Sapateiros, metia-se na casa de Antenor Lima, a jogar gamão ou damas, talvez a única alegria verdadeira de sua vida. Antenor Lima, comerciante estabelecido no Tabuão e um dos mais destacados fregueses de Gil, mereceria classificar-se na lista dos vizinhos representativos, não fosse sua pública e notória mancebia com a negra Juventina, inicialmente sua cozinheira. Instalada agora na janela da casa própria do lojista, com empregada para varrer e arrumar, insolente e respondona, seus bate-bocas com dona Rozilda fizeram época na ladeira do Alvo. Pois bem: no passeio desse rebotalho sentava-se Gil, todo cheio de salamaleques, tratando a ordinária como se ela fosse senhora casada no padre e no juiz.