Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 13)
Dona Rozilda também esperava, ia crescendo em impaciência: quando, quando surgiria ele, esse anunciado genro, esse milionário, esse lorde, esse fidalgo, esse doutor de borla e de capelo, esse atacadista da Cidade Baixa, esse fazendeiro de cacau ou de tabaco, esse dono de loja ou mesmo de armarinho, em último caso esse suado gringo de armazém de secos e molhados, quando?
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Tanto tempo esperaram, semanas, meses e anos, tão bem-postas e arranjadas, e nenhum fidalgo apareceu; nem rapaz aristocrata da Barra ou da Graça, nem filho de coronel do cacau, nenhum senhor do alto comércio, sequer galego enriquecido no duro labor dos armazéns e padarias. Quem chegou foi Antônio Morais com sua oficina de mecânico, sua competência autodidata, seu honrado macacão negro de graxa. Chegou na hora certa e por isso foi bem recebido. Já Rosália chorava lágrimas de vitalina condenada à solidão e à beatice, dona Rozilda não teve forças para reagir. Não era o genro antevisto nas longas vigílias de trabalho no pedal da máquina ou no calor do fogão. Não mais podia prender, porém, em considerações e argumentos ou na ira ameaçadora, o fustigado ímpeto de Rosália, cujos vinte (e tantos) anos sadios ansiavam por marido.
Ao demais, se Antônio Morais não era rico nem importante, pelo menos não era empregado de patrão nenhum, tinha sua pequena oficina afreguesada, ganhava com que sustentar mulher e filhos. Dona Rozilda curvou-se ante o destino, meio a pulso mas curvou-se, que jeito?
Naquele tempo já Heitor conseguira colocação na Estrada de Ferro de Nazaré, por intermédio de seu padrinho, dr. Luís Henrique, e fora viver na cidade do Recôncavo, vindo à capital raramente. Tinha futuro no emprego, dona Rozilda não precisava preocupar-se com ele. Também Flor começara a dar cursos de cozinha a moças e senhoras, ganhando dinheiro e fama de professora competente. Agora ela carregava com a maior parte das despesas da casa, mesmo porque Rosália, amedrontada com o correr do tempo, despendia seus ganhos em enfeitar-se, em vestidos e sapatos, perfumes e rendas.
Antônio Morais reparara em Rosália na matinê do Cinema Olímpia, num dia de palco, quando, além dos dois filmes e do seriado, seu Mota, o empresário, exibia artistas de passagem na Bahia, restos de mambembes desfeitos em excursões pelo interior, famintas estrelas de embaçada luz. Enquanto “Mirabel, o sonho sensual de Varsóvia”, polaca venerável, cansada de guerra, das ribaltas e dos leitos dos castelos, rebolava uma antiga bunda emurchecida para delírio da criançada ali a educar-se, Antônio Morais divisou em cadeiras próximas dona Rozilda e as duas filhas: Rosália na excitada espera, Flor desabrochando nos peitos e nas ancas.
Não mais teve olhos o mecânico para o consumido bamboleio do “sonho de Varsóvia”. O petulante olhar de Rosália cruzou com sua mirada súplice. Na saída, o moço acompanhou, a prudente distância, mãe e filhas, localizando a moradia burguesa da ladeira do Alvo. Rosália apareceu por um instante na sacada, deixou um sorriso a esvoaçar.
No outro dia, após a janta, Antônio Morais penava ladeira acima ladeira abaixo, estagiando na calçada fronteira ao sobrado. Da janela, Rosália espreitava, animadora. O mecânico subia e descia, os olhos postos na sacada alta, assoviando modinhas. Daí a pouco, Rosália, escoltada por Flor, surgiu ao pé da escada. Num passo de urubu-malandro, Morais encostou.
Dona Rozilda, sempre alerta, ainda na matinê reparara no namoro. E, ao ver Rosália esfogueada e indócil, saiu a tomar informações sobre o sujeito; Antenor Lima o conhecia, forneceu notícias concretas e favoráveis: mecânico de mão-cheia, oficina própria, nos Galés, um monstro no trabalho. Menino de nove anos, Antônio Morais perdera pai e mãe num desastre de marinete, ficara solto nas ruas e em vez de juntar-se aos capitães da areia e sair para a aventura da vagabundagem e da má vida, metera-se na oficina de Pé de Pilão, um negro maior que a catedral, mecânico e boa-praça. Na oficina, o molecote fazia de um tudo, pau para toda obra, esperto como ele só. Sem ordenado fixo mas com o direito de ali dormir, sem falar nas gorjetas, algumas gordas. Sozinho aprendera a ler e a escrever, com Pé de Pilão aprendera o ofício, e ainda jovem começara a trabalhar por sua conta e risco, cobrando uns biscates. Tinha as mãos maneiras e a cabeça viva: os motores de automóvel não guardavam segredos para sua curiosidade. Não era nenhum doutor, certamente, nem rapaz de posses. Mas poucos mecânicos podiam competir com ele. Ganhava seu dinheiro seguro, daria um marido de primeira, que diabo a mais pretendia Rosália, se não era nenhuma princesa nem possuía roça de cacau? – perguntava o malcriado Lima à enganjenta e resmungona vizinha.
Outros conhecidos confirmaram essa extensa crônica do comerciante, e dona Rozilda, após aconselhar-se com seu compadre, dr. Luís Henrique, um ruibarbosa de sabedoria – conselhos inestimáveis – e de muito pesar os prós e os contras, decidiu a favor do mecânico.
Não era, repetia, o genro dos seus sonhos, o príncipe de sangue nobre e arcas de ouro. Sangue nobre só o herdara Morais de um ancestral distante, Obitikô, príncipe de tribo africana aportado escravo na Bahia, sangue azul a misturar-se com o sangue plebeu de degradados lusitanos e de holandeses mercenários. Resultou da mistura um pardavasco claro de sorriso fácil, simpático moreno. Quanto a arcas de ouro, o pé-de-meia com as economias do mecânico não lhe permitia sequer montar casa imediatamente. Mas Rosália trancara-se em sua babada paixão, não aceitava discutir sobre as obscuras origens, o honrado ofício e as magras poupanças do rapaz, e, ante essa Rosália espinhosa, de resposta insolente e fácil calundu, dona Rozilda baixou a cabeça. E, assim, na quinta ou sexta aparição noturna de Morais – todo engomado em branco, o chapéu quebrado sobre o olho, os sapatos de duas cores, irresistível! – , ela o interpelou.
Estavam os dois amorosos num enleio, olhos nos olhos, as mãos dadas, falando bobagens, quando, das sombras da escadaria, dona Rozilda irrompeu inesperada e inquisidora, dura voz terrorista:
– Rosália, minha filha, quer me apresentar ao cavalheiro?
Feitas as apresentações, Rosália engrolando as palavras, Morais todo sem jeito, dona Rozilda foi logo arremetendo, sem nenhuma cerimônia nem consideração:
– Filha minha não namora em pé de escada nem em canto de rua, não sai sozinha para passear com namorado, não crio filha para divertimento de gaiato nenhum…
– Mas, eu…
– Quem quiser conversar com filha minha tem de declarar antes suas intenções.
Antônio Morais afirmou a pureza matrimonial de suas mais recônditas intenções, não era moleque para abusar das filhas dos outros. Respondeu com presteza e modéstia ao minucioso interrogatório, dona Rozilda comprovando informes, sobretudo os referentes aos ingressos da oficina.
Foi o mecânico aprovado e admitida oficialmente sua presença noturna à porta do sobrado, junto à qual, a partir daquela conferência, Rosália o esperava sentada numa cadeira. Da janela, dona Rozilda, no controle da moral familiar; filha sua não era para o desfrute de nenhum vadio. Assim, quando Morais adiantava a mão terna para a terna mão da moça, ouvia-se o repreensivo pigarro de dona Rozilda caindo lá de cima:
– Rosália!
Com isso apressou o noivado, Morais ansioso de maior liberdade, de intimidade menos vigiada. Noivo, passou a freqüentar a casa, a sair com Rosália aos domingos para a matinê, levando Flor de contrapeso, com ordens terminantes de vigiar e controlar os enamorados, de impedir beijos e ternuras; dona Rozilda exigia o máximo respeito. Mas Flor não nascera para tira de polícia; compreensiva e solidária, voltava as costas para a irmã e o futuro cunhado, absorvia-se no filme, a mastigar confeitos, deixando em paz o casal e sua urgência, suas bocas e mãos atarefadas.
Durante namoro e noivado, dona Rozilda mostrou-se tão amável quanto lhe era possível, escondeu as saliências mais ásperas de sua natureza. Necessitava casar as filhas, Rosália chegara ao limite da idade; sobravam moças em busca de marido, minguavam rapazes dispostos ao matrimônio. Árdua batalha, essa de casar filhas, dona Rozilda bem o sabia. Suas conhecidas, quase todas consideravam o mecânico um bom partido. Uma delas, inclusive, uma dona Elvira, mãe de três encardidas e remelentas donzelas, destinadas ao definitivo celibato, pusera as três bruacas a cercarem o pretendente, desfeitas em sorrisos e olhares prometedores, só faltavam arrastá-lo para a cama, lambisgóias desenxavidas e audaciosas. Ao demais, era Morais trabalhador e morigerado, não seria difícil à sogra comandá-lo, dirigi-lo à sua vontade, após o casamento. Nisso se enganou, o genro iria surpreendê-la.
Assim, a completa verdade sobre Rozilda, o artesão só a veio conhecer depois de casado. Haviam decidido habitar todos no primeiro andar da ladeira do Alvo, solução econômica e sentimental, pois gastariam menos e continuariam juntos, e outra coisa não demonstravam querer Morais e dona Rozilda senão continuarem para sempre juntos. Rosália resistira a esses planos temerários, “quem casa quer casa”, recordava ela, mas como fazer frente a essa lua-de-mel da mãe e do noivo?