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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 15)

18

– Onde já se viu homem rico ser feio?

Flor sorria, as covinhas do rosto eram uma lindeza, não tinha pressa em casar. Tapava a boca da mãe:

– A senhora fala como se eu fosse mulher-dama para medir os homens pelo dinheiro… Não gosto dele, se acabou…

A luta entre dona Rozilda, irritada e irritante, num nervosismo de doente, e Flor, serena como se nada estivesse acontecendo, peleja da qual Pedro Borges era objetivo e prêmio, atingiu o ápice quando das festas de formatura no fim daquele ano. O doutorando as convidara para o ato solene e para o baile.

Para o ato solene, no salão nobre da faculdade, dona Rozilda vestiu-se de sogra, toda armada em tafetá, majestosa como um peru de roda, a rir até pelos babados das mangas, um pente de dançarina espanhola espetado no coque. No baile de formatura, Flor resplandecia em rendas e filés, não teve descanso. Não falhou uma só contradança, tantos os cavalheiros a solicitarem-na. Mas, nem assim concedeu esperanças ao recém-formado.

Nem mesmo quando ele, em vésperas de partir para a Amazônia longínqua, veio visitá-las, trazendo o pai para melhor impressionar. Chamava-se Ricardo o graúdo paraense, um gigante, vozeirão de trovoada, os dedos pejados de jóias – dona Rozilda quase desmaia ao fitar tanta pedra preciosa. Havia um carbonado sem tamanho, valia pelo menos cinqüenta contos de réis, ai, meu Deus!

O velho falou de suas terras, dos índios mansos e da borracha, das histórias do rio Amazonas. Falou também de sua alegria ao ver o filho doutor, de canudo de médico. Só lhe faltava agora vê-lo casado, com moça direita, modesta e sincera, não fazia questão de dinheiro, dinheiro ele juntara bastante – movia os dedos, os brilhantes faiscavam, iluminando a sala. Queria nora que lhe desse netos e netas para encherem de bulha e calor aquela austera casa de mármore, em Belém, onde o velho Ricardo, viúvo, vivera solitário os anos de faculdade de Pedro. Falava e olhava para Flor como à espera de uma palavra, de um gesto, de um sorriso: se aquilo não era introdução para um pedido de casamento, então dona Rozilda era uma ignorante de tais coisas. Tremia ela de emoção e ânsia, chegara a hora abençoada, jamais estivera tão perto de seus objetivos, fitava a bobela da filha esperando seu acordo tímido porém firme. Mas Flor apenas disse com sua voz de madorna:

– Não vai faltar moça bonita e direita para casar com Pedro, ele bem merece. Eu só queria que fosse aqui, na Bahia, que era para eu preparar o banquete do casamento.

Pedro Borges recolheu sem ressentimentos a aliança de ouro já adquirida, o velho Ricardo pigarreou, mudou de assunto. Dona Rozilda sentiu-se mal, ofegante, o coração descarrilhando. Saiu da sala num repente indignado, temia ter uma coisa, desejou ver a filha morta e enterrada, a ingrata, a bestalhona, a idiota, inimiga da própria mãe, amaldiçoada! Como se atrevia ela a recusar a mão do doutor – agora realmente doutor – , do moço rico, do herdeiro das ilhas, dos rios e dos índios, dos mármores todos, dos faiscantes anéis, ai, como se atrevia a infeliz bastarda?

Ah!, que muro de ódio e inimizade, de imperdoável incompreensão, intransponível de rancor, não se ergueria entre mãe e filha, juntas para sempre e para sempre separadas, se naquele começo de ano, logo após a partida do desprezado Borges, não houvesse surgido Vadinho! Ah!, diante dos títulos, da posição e da fortuna de Vadinho – pelo próprio Vadinho e por alguns de seus amigos fora dona Rozilda amplamente informada – não passava o paraense de um pobretão, com todo o mármore de seu palácio e seus doze criados; de um indigente, com toda sua terra e toda sua água.

6

Numa breve e polida curvatura, Mirandão, o rosto resplandecente de simpatia, pediu licença, sentou-se ao lado de dona Rozilda. As cadeiras de palhinha circundavam a sala, encostadas à parede. O estudante crônico (“perseverante”, corrigia ele, se lhe recordavam seus sete anos de escola de agronomia) estendeu as pernas, ajustou cuidadoso o vinco das calças, analisando os pares no tango argentino caprichado, figurações difíceis, passos quase acrobáticos, sorriu aprovativo: nenhum dançarino podia comparar-se a Vadinho, nenhum com sua classe, benza-te Deus e te livre do mau-olhado, t’esconjuro! Mirandão era supersticioso. Mulato claro e pachola, de seus vinte e oito anos de idade, a mais popular figura dos castelos e das casas de jogo da Bahia.

Sentindo o olhar de dona Rozilda a acompanhar o seu, para ela voltou-se, abrindo ainda mais o cativante sorriso, a examiná-la com olho crítico e apreciador. “Bucho definitivo, sem serventia”, concluiu com pesar. Não devido à idade. Há muito Mirandão inscrevera em seu código de procedimento com as mulheres um parágrafo afirmando jamais a nenhuma dever-se desprezar por madura ou velha, caso contrário podia-se cair em erros fatais. Mulheres já além dos cinqüenta ainda por vezes mantinham rara e admirável forma e juventude, capazes de surpreendentes performances, de recordes imprevisíveis. Ele o sabia por viva experiência, e ainda agora, ao fitar as ruínas de dona Rozilda, recordava-se do esplendor crepuscular de Célia Maria Pia dos Wanderleys e Prata, todos esses nomes para designar uma tampinha desse tamanho, senhora da alta sociedade, mulherzinha espevitada, levada da breca. Com mais de sessenta anos confessados, e a pôr florestas de chifres no marido e nos amantes, insaciável. Com netas balzaquianas e bisnetas casadoiras, e ela a fazer caridade – e que caridade!, era árdega e magnânima fêmea – a jovens estudantes necessitados. Mirandão semicerrou os olhos: para não ver a vizinha, carcaça sem recurso nem escapatória, e também para melhor recordar o uterino e inesquecível furor de Célia Maria Pia dos Wanderleys e Prata e as notas de cinqüenta e cem mil-réis que ela, grata, rica e esperdiçada, lhe enfiava às escondidas no bolso do paletó. Ah!, bons tempos aqueles, Mirandão a iniciar-se nos estudos e nos mistérios da vida, calouro de agronomia, cascabulho da noite, e Maria Pia dos Wanderleys gastava legítimo perfume francês nas rugas do pescoço e nos baixios.

Reabriu os olhos para a sala, a sentir nas narinas a fragrância da inolvidável tataravó; a seu lado, o xaveco com cara de bruxa – argaço vil, pelancas nas bochechas, coque nos cabelos – continuava a fitá-lo com seus olhos miúdos. Era um espantalho, devia feder sob as anáguas, um aftim de carne passada; Mirandão aspirou rápido as sobras do perfume francês na memória distante – ah!, nobre Wanderley, onde andarás agora, septuagenária? A velha na cadeira, que estrepe mais sem misericórdia!

Educado, porém, como se honrava de ser, o permanente estudante de agronomia não deixou de sorrir para dona Rozilda. Uma bruaca, uma catraia, resto de peixe seco e salgado, inútil para qualquer ação ou pensamento lúbrico, nem assim deixava de merecer respeito e atenção: exausta mãe de família, pelo jeito viúva; e Mirandão era, no fundo, um moralista extraviado nas casas de tavolagem. Ao demais, chegara seu momento de euforia.

– Festinha animada, não acha? – perguntou a dona Rozilda iniciando o histórico diálogo.

Era sempre assim, em cada um de seus freqüentes pileques. Primeiro tinha aquela fase de esfuziante júbilo. Parecia-lhe o mundo perfeito e bom, a vida alegre e fácil, e naquela hora Mirandão tudo podia compreender e estimar, estabelecia-se entre ele e as demais criaturas um clima de comunhão total, mesmo entre ele e a fedida arraia-mijona, sua vizinha de cadeira. Ficava delicado, conversador, a imaginação extravasando, sem limites. A figura do estudante pobre, “perpétuo estudante e perpetuamente sequioso”, imagem por ele criada e da qual vivia, cedia lugar ao homem moço, importante e vitorioso, promovido a engenheiro-agrônomo, quando não a livre-docente da escola, enumerando vantagens, galgando cargos e conquistando mulheres. Danava-se a contar histórias, e como as contava! Era um mestre da narrativa oral, criador de tipos e de suspense, um clássico da boa prosa.

Se a bebedeira se prolongava, no entanto, ao fim da noite esse otimismo e essa euforia se esfumavam, e, ao término da esbórnia, envolvia-se Mirandão em lástima e lamento, a flagelar-se, lancinante, em impiedosa autocrítica, recordando a esposa vítima de sua degradação, os quatro filhos sem comida, toda a família ameaçada de despejo, e ele ali, nos antros de jogo e nos prostíbulos. “Sou um miserável, um crápula, um canalha”, alardeava um Mirandão pungente, com remorsos e sem malícia, um moralista. Mas essa segunda e lamentosa fase só de raro em raro acontecia, só em ocasiões de porres monumentais.

Às vinte e três e trinta, porém, na casa em festa do major Pergentino Pimentel, aposentado da Polícia Militar do Estado, encontrava-se Mirandão contente com o mundo, disposto a cordial e proveitoso intercâmbio de idéias com dona Rozilda. Acabara de comer e beber à tripa forra na sala de jantar, provando todos os pratos, repetindo alguns deles. Num esperdício de comida, ali se exibiam os quitutes baianos, vatapá e efó, abará e caruru, moquecas de siri-mole, de camarão, de peixe, acarajé e acaçá, galinha de xinxim e arroz de haussá, além de montes de frangos, perus assados, pernis de porco, postas de peixe frito para algum ignorante que não apreciasse o azeite de dendê (pois como considerava Mirandão de boca cheia e com desprezo, há todo tipo de bruto nesse mundo, sujeitos capazes de qualquer ignomínia). Toda essa comilança regada a aluá, a cachaça, a cerveja, a vinho português. O major realizava sua festa há mais de dez anos, cumprindo severa obrigação de candomblé, desde quando os orixás haviam-lhe salvo a esposa ameaçada de morte com pedras nos rins. Não media despesa, juntando dinheiro o ano todo para gastá-lo satisfeito naquela noite. Mirandão se atolara, garfo respeitável e copo mais ainda. Agora, empanzinado, afrontado de tanto comer e beber, só mesmo um bom cavaco para ajudar a digestão.