Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 14)
Não durou seis meses a lua-de-mel, desfez-se a combinação, pois, como informou o genro aos conhecidos: “Só Cristo agüentaria morar com dona Rozilda e ainda assim não era certeza, precisava experimentar para ver se o Nazareno tinha bastante competência. Pois talvez nem ele suportasse”.
Mudaram-se para o fim do mundo do Cabula, quase zona rural. Morais preferia enfrentar aquele bonde comprido e lento, viagem de nunca acabar, descarrilhando a toda hora, atrasado para sempre; preferia sair pela madrugada para chegar a tempo na oficina situada nas imediações da ladeira dos Galés; meter-se naqueles matos esconsos onde sibilavam venenosas cobras cascáveis e onde os exus dos muitos candomblés da redondeza andavam soltos pelos caminhos fazendo misérias, a tolerar o convívio cotidiano da sogra. Antes as cascavéis e os exus.
No primeiro andar da ladeira do Alvo ficaram apenas Flor adolescente, apurando em moça bonita – delicado rosto, seios altos e altaneiras ancas – , e dona Rozilda, uma dona Rozilda cada vez mais agre, limitada agora às graças e às prendas daquela filha, seus derradeiros trunfos na batalha pela ascensão social, batalha tantas vezes perdida.
Não perdera, no entanto, sua resistência, não se abalara sua firme vontade de subir, de galgar os degraus a conduzi-la ao mundo dos ricos. Nas suas noites fatigadas de insônia (dormia pouco, ficava a ruminar projetos) decidira não entregar a caçula a nenhum outro Morais. Destinava Flor a melhor partido, a rapaz de qualidade, a branco fino, a doutor formado ou a comerciante forte. Defenderia com unhas e dentes aquela última trincheira, não se repetiria o acontecido com Rosália. Não só Flor era muito mais dócil e cordata como não receava ficar solteirona, não tinha conversa de casamento, não se levantava contra a mãe quando esta lhe proibia engraçar-se com empregadinhos de escritório, caixeiros de armarinho, galegos de balcão de padaria. Obedecia sem resmungos, não se revoltava aos berros, não se trancava no quarto ameaçando suicídio, num calundu daqueles, como o fazia Rosália quando dona Rozilda, zelosa de seu futuro, lhe interditava qualquer reles namorico. Resultado: casara com aquele mequetrefe do Morais, um zé-ninguém, nem sequer caixeiro, um simples artesão, um operário, que horror! Socialmente ainda menos importante do que elas. Podia ser um colosso no trabalho, podia ganhar dinheiro, ser bom marido, alegre camarada: a verdade, porém, é que a filha, em vez de subir, descera na escala social; assim, pelo menos, amargava dona Rozilda, destinada a outras alturas. Com Flor era diferente, não iria repetir-se o equívoco.
Enquanto dona Rozilda forjava planos, Flor fazia-se conhecida professora de culinária, especialmente de cozinha baiana. Nascera com o dom dos temperos, desde menina às voltas com receitas e molhos, aprendendo quitutes, gastando sal e açúcar. De há muito recebia encomendas de pratos baianos, constantemente chamada a ajudar em vatapás e efós, em moquecas e xinxins, inclusive em famosos carurus de Cosme e Damião como o da casa de sua tia Lita e o de dona Dorothy Alves, onde se reuniam dezenas de convidados e ainda sobrava comida para outros tantos. Carurus anuais, promessas feitas aos santos mabaças, aos Ibejis. Com o tempo seu renome foi-se espalhando, vinham lhe pedir receitas, levavam-na à casa de gente rica para ensinar o ponto e o tempero desse e daquele prato mais difícil. Dona Detinha Falcão, dona Lígia Oliva, dona Laurita Tavares, dona Ivany Silveira, outras senhoras “de representação”, de cuja amizade tanto se gabava dona Rozilda, recomendavam-na a amigas, Flor não tinha mãos a medir. Foi uma dessas senhoras esnobes e endinheiradas quem lhe deu a idéia da escola, pois, tendo-lhe pedido receitas teóricas e demonstrações práticas, fez questão, ao pagar-lhe o trabalho, de esclarecer que estava remunerando a ótima professora e boa amiga, e não gratificando uma cozinheira. Sutilezas gentis de dona Luísa Silveira, sergipana fidalga toda cheia de astúcias e não-me-toques.
A sério, com escola montada, Flor só começou a lecionar depois da partida de Rosália e Morais para o Rio de Janeiro. O mecânico concluiu não ser suficiente a distância entre os altos do Cabula e a ladeira do Alvo, quis colocar entre sua casa e a sogra o próprio mar oceano, tomara sagrada aversão a dona Rozilda, “a megera”, como dizia: “Aquilo é peste, fome e guerra!”.
Logo prosperou a escola, até senhoras do Canela e do Garcia, mesmo da Barra, vieram desvendar os mistérios do azeite doce e do azeite de dendê; uma das primeiras foi dona Magá Paternostro, ricaça cheia de relações, entusiástica propagandista dos dotes de Flor.
O tempo foi passando, corriam os anos, Flor não tinha pressa em arranjar noivo, agora era dona Rozilda quem começava a preocupar-se, afinal a filha caçula já não era menina. Flor encolhia os ombros, interessada apenas na escola. O irmão, numa de suas vindas de Nazaré, desenhara um cartaz com tinta de cor – elogiavam muito seu jeito para o desenho – , pendurara sob a sacada:
Heitor lera nos jornais extenso noticiário sobre uma escola Saber e Arte, experiência de um fulano vindo dos Estados Unidos, um tal de Anísio Teixeira. Com a mudança de uma letra no título em moda, adaptou-o aos interesses da irmã. Ao lado das letras caprichadas, colher, garfo e faca, cruzados em gracioso tripé, completavam a obra do artista. (Se fosse hoje já podia Heitor ir pensando numa exposição individual e na venda de uns quadros a bom preço, mas era naqueles tempos, e o funcionário da ferrovia contentou-se com os elogios da irmã, da mãe e de certa aluna de Flor, uma de olhos molhados, que atendia por Celeste.)
As aulas de culinária davam o necessário para o sustento da casa, as parcas despesas de mãe e filha, e também para guardar algum dinheiro, tendo em vista os gastos de um futuro matrimônio. Mas, sobretudo, enchiam o tempo de Flor, libertavam-na um pouco de dona Rozilda a repetir-lhe quanto sacrifício lhe custara criar e educar os filhos, criar e educar aquela filha caçula, e de como lhe era necessário encontrar marido rico que as arrancasse dali, da ladeira do Alvo e do fogão, para as delícias da Barra, da Graça, da Vitória.
Flor, porém, não parecia preocupada com namoro ou noivado. Nas festinhas, dançava com uns e com outros, ouvia os galanteios, sorria agradecida, não ia além disso. Não correspondeu nem mesmo aos apaixonados apelos de um doutorando em medicina, um paraense alegre, festeiro e almofadinha. Não lhe deu corda, apesar da excitação de dona Rozilda: finalmente um estudante, e quase doutor, aspirava à mão de sua filha.
– Não gosto dele… – declarou Flor, peremptória. – Feio como o cão…
Não houve conselho nem bronca de uma dona Rozilda em fúria que a fizesse mudar de opinião. A mãe entrou em pânico: iria repetir-se o caso de Rosália, revelando-se Flor igual à irmã, obstinada, disposta a resolver por conta própria sobre noivo e casamento? Quando pensava ter na filha mais moça a repetição da natureza do finado Gil, curvada à sua vontade, lá saía ela a antipatizar com o doutorzinho às vésperas do diploma, filho de pai latifundiário no Pará, dono de navios e ilhas, de seringais, matas de castanheiros, tribos de índios selvagens e rios imensos. Recamado de ouro. Dona Rozilda partira a informar-se e, na volta, após ouvir alguns conhecidos, já se fazia na Amazônia a reinar sobre léguas de terra, a mandar e desmandar em caboclos e índios. Finalmente aparecera o príncipe encantado, não fora inútil sua espera, nem seu sacrifício mal-empregado. Num navio do rio Amazonas aportaria ela nas soberbas casas da Barra, nos trancados palacetes da Graça, os donos a cortejá-la em salamaleques e adulações.
Flor sorria com seu delicado rosto redondo, cor de mate, sorria com as formosas covinhas das faces, com os olhos surpresos, repetia com sua voz cansada, voz de dengo e de madorna:
– Não gosto dele… É feio como a necessidade…
“Que diabo ela pensava?”, dona Rozilda subia a serra. Flor estava agindo como se casamento fosse questão de gostar ou não gostar, como se houvesse homem feio e bonito, como se pretendente igual a Pedro Borges andasse sobrando pela ladeira do Alvo.
– O amor vem com a convivência, minha condessa de titica, com os interesses em comum, com os filhos. Basta que não haja antipatia. Você tem raiva dele?
– Eu? Não, Deus me livre. Ele é até bonzinho. Mas só caso com o homem que eu ame… Esse Pedro é um bicho de feio… – Flor devorava romances da Biblioteca das Moças, apetecia-lhe rapaz pobre e bonito, atrevido e loiro.
Espumava dona Rozilda de raiva e excitação; a voz esganiçada cruzando a rua, transmitindo os ecos da disputa a todos os vizinhos:
– Feio! Onde já se viu homem feio ou bonito? A beleza do homem, desgraçada, não está na cara, está é no caráter, na sua posição social, em suas posses. Onde já se viu homem rico ser feio?
Quanto a ela, não trocava o feioso Borges (e até não era tão horrível assim, um tipo alto e forte, a cara um pouco espinhosa, é verdade) por toda essa caterva de moleques atrevidos e insolentes do Rio Vermelho, sem tostão no bolso, sem onde cair mortos, uns vagabundos. O dr. Borges – antecipava-lhe o título – era moço de bem via-se logo em seus modos, de família distinta do Pará, distinta e podre de rica. Ela, dona Rozilda, tinha sabido: a residência deles em Belém era um palácio, só de criados mais de uma dúzia. Uma dúzia, ouviu, filha ruim, caprichosa e tola, fátua e absurda. Todos os pisos de mármore, de mármore as escadarias. Estendia as mãos, teatral: