Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 16)
Na sala, os pares desdobravam-se no tango argentino, ao piano Joãozinho Navarro. Dizendo-se Joãozinho Navarro, para os entendedores já se disse tudo, não havia pianista mais requestado na Bahia, e certa gente, como um juiz de nome Coqueijo muito entendido em música, ligava o rádio só para ouvi-lo a dedilhar, num programa de canções populares. E, pela madrugada, no Tabaris, não era seu piano o motivo da maior animação? Festa particular dificilmente o obtinha, não lhe sobrando tempo para tais amadorismos. Indefectível, porém, na brincadeira em casa do major, a quem Joãozinho não podia enfunar, era-lhe devedor de gentilezas antigas.
Mirandão olhava complacente os dançarinos, aplaudia com a cabeça a execução de Joãozinho – batuta! – , sorrindo para a vizinha, constatando a absoluta ausência de qualquer outro penetra, além dele e de Vadinho. Nenhum outro herói! – penetrar na festa do major Tiririca (como os moleques do Rio Vermelho haviam apelidado o bravo Pergentino) era proeza impossível, motivo de apostas e desafios. Mirandão considerava-se realizado: finalmente haviam conseguido, ele e Vadinho, furar a barreira estabelecida pelo major e obter que a pesada porta de carvalho, trancada a chave, única passagem a abrir-se para os convidados e só para os convidados – todos eles rostos familiares aos donos da casa, amizades de longa data – , obter que se abrisse para ele e para Vadinho e lhes desse entrada. E não só isso; sendo os dois acolhidos aos abraços pelo major e por dona Aurora, sua esposa, ainda mais ciosa da qualidade e identidade dos convivas que o marido. Lá fora, no sereno animadíssimo, os gabirus amargaram a derrota ao vê-los penetrar, após breve troca de palavras com o major Tiririca, cruzando a intransponível soleira por entre ruidosas exclamações de dona Aurora. Como o haviam conseguido?
Mirandão suspirou de bucho farto, num sorriso beato. Lá ia Vadinho pela sala, a bailar, a dama linda em seus braços, morena rechonchuda, servida de carnes – e quem gosta de ossos é cachorro – , com uns olhos de azeite e uma pele cobreada, cor de chá, formosa de ancas e de seios.
– Pedaço de descaminho, perdição de morena! – louvou Mirandão, apontando a moça a dançar com o amigo.
O estupor pôs-se em guarda, alteou o busto seco, ganiu com voz batalhadora:
– É minha filha…
Mirandão nem se alterava:
– Pois receba meus parabéns, minha senhora. Vê-se logo que é moça direita, de família. O meu amigo…
– O moço que está dançando com ela é seu amigo?
– Se é meu amigo? Íntimo, minha senhora, fraterno…
– E quem é ele, eu poderia saber?
Mirandão endireitou-se na cadeira, puxou do bolso o lenço perfumado, enxugou umas gotas de suor na testa larga, cada vez mais sorridente e feliz: nada havia de que ele tanto gostasse como de armar uma patranha, uma história bem divertida.
– Permita-me que antes eu me apresente: doutor José Rodrigues de Miranda, engenheiro-agrônomo, requisitado no gabinete do delegado auxiliar… – estendia a mão, cordialíssimo.
Num último assomo de desconfiança, dona Rozilda mediu o interlocutor com um olhar hostil. Mas a fisionomia pachola e o franco sorriso de Mirandão apagavam qualquer suspeita, rompiam qualquer resistência, desarmavam e conquistavam qualquer adversário, mesmo maligno e ranheta como dona Rozilda.
7
Naquele dia, ao fim da tarde, quando maior o mormaço, uma atmosfera espessa, de cimento armado, estando Vadinho e Mirandão em São Pedro, no Bar Alameda, a tomar as primeiras cachaças do dia, discutindo planos para a noite de festa no Rio Vermelho, eis que na porta do botequim viram surgir a afogueada face de Chimbo, aquele parente importante de Vadinho, na ocasião comissionado como delegado auxiliar, ou seja a segunda pessoa da polícia.
Escrivão de casamentos e filho de prestigioso político governista, sem respeito pela tradicional austeridade do pai, sem ligar para as conveniências, esse distante primo de Vadinho, Guimarães dos legítimos e ricos, era um estróina, folgazão inveterado, bom no trago, nos dados e nas putas – para tudo dizer: um porra-louca. Ultimamente um pouco retraído, forçando sua natureza espontânea, em atenção ao cargo. Cargo no qual, por isso mesmo, pouco duraria, preferindo sua liberdade às posições, não a trocava pela mercê mais alta, por título algum.
Já anteriormente desistira do governo de Belmonte, cidade de seu nascimento, onde fora empossado intendente pelo pai, senador e feudal, após um simulacro de eleição. Abandonou posto e título, deveres e vantagens, era demasiado o preço a pagar. Não se contentavam os belmontenses com suas reais qualidades administrativas, exigiam de seu governador ilibados costumes, em intolerável abuso.
Fora um zunzunzum dos diabos, um escândalo sem medida, só porque ele, audaz e progressista, importara da Bahia algumas amenas raparigas, no desejo de romper a monotonia da pequena cidade e sua solidão. Fizera vir Rita de Chimbo, prestigiosa animadora da noite no Tabaris. De Chimbo apelidada devido a antigo e persistente rabicho a uni-los, xodó cantado em prosa e verso pelos boêmios. Brigavam, xingavam-se, separavam-se para sempre e dias depois faziam as pazes, permaneciam em seu idílio, enrabichados. Por isso juntara Rita a seu nome o apelido de seu amor, assim como a noiva adota o sobrenome do noivo no ato do matrimônio. Ao sabê-lo intendente, senhor de baraço e cutelo a exercer direito de vida e morte sobre indefesa população, exigiu, em mensagem telegráfica, compartir de sua autoridade. Que prazer no mundo se pode comparar ao do mando, ao do poder? Queria saboreá-lo a voluptuosa Rita. Chimbo solitário nas noites de Belmonte, longas de nada por fazer, vazias de um tudo, escutou a súplica ardente, mandou buscar a rapariga.
Chimbo intendente, rei em sua cidade, Rita de Chimbo não podia nesse império desembarcar como uma qualquer, era a favorita, a concubina real. Eis por que convidou para seu cortejo três beldades, diversas entre si mas excelentes as três: Zuleika Marron, mulata de capricho e deboche, suas ancas de saracoteio fechavam as ruas, atropelavam os pedestres; Amália Fuentes, enigmática peruana de voz macia, com tendências místicas, e Zizi Culhudinha, uma espiga de milho, frágil e doirada, sapeca como ela só. Essa restrita e formosa caravana, pesa dizê-lo!, não teve em Belmonte a entusiástica acolhida a que fazia jus, ao contrário, foi alvo de aberta hostilidade por parte das senhoras e mesmo de cavalheiros. Se excetuarmos certos grupos sociais – os imberbes estudantes, os escassos notívagos, os cachaceiros em geral – e alguns indivíduos, cabe afirmar ter-se mantido a população arredia e suspeitosa.
Depois, Rita de Chimbo foi vista à meia-noite, na sacada da intendência, bêbada de cair, a saudar a cidade com sua inesgotável coleção de nomes sujos. Circulavam notícias espantosas: o velho Abraão, comerciante e avô, arrastava-se ridículo aos pés de Zuleika Marron, dilapidando o patrimônio dos netos em bacanais com a barregã. Bereco, rapaz até então direito e casto, funcionário dos Correios, presidente das Obras Pias, apaixonara-se por Amália Fuentes, descobrira suas raízes de pureza e religiosidade, oferecia-lhe aliança de noivado, levando sua preconceituosa família ao desespero. Culminou o escândalo quando a Culhudinha fez-se a bem-amada de todos os colegiais, seu sonho e sua rainha, sua bandeira de luta e seu pulcro ideal. Lá ia ela toda loira nas noites de Belmonte, cercada de meninos e o poeta Sosígenes Costa dedicava-lhe sonetos. Oh!, ignomínia!
Até o xibungo do vigário, padre arrogante de fala esganiçada, pregara contra Chimbo, catilinária veemente contra sua escandalosa incontinência. Classificara as diletas raparigas de “lixo do meretrício metropolitano”, de “asseclas do demônio”, coitadinhas das meninas! Sermão incendiário, a igreja repleta na missa dominical, e o reverendo a acusar Chimbo de estar transformando a pacata Belmonte em Sodoma e Gomorra, os lares arruinados, desfeitas as famílias, urbe infeliz à qual acontecera a desgraça de tão depravado intendente, esse “Nero em ceroulas”. Chimbo possuía senso de humor e riu da virulência do padre. Choraram as raparigas, Rita de Chimbo clamou vingança, e Miguel Turco, árabe exaltado e secretário da intendência, incondicional dos Guimarães e chaleira notório, propôs-se executá-la: mandariam dois cabras de confiança ensinar boas maneiras ao subversivo vigário, chegando-lhe a batina ao corpo.
Chimbo enxugou as lágrimas de Rita, agradeceu a dedicação do sírio, gratificou os dois capangas, dois criminosos de morte, foragidos de Ilhéus. Sob aparente nonchalança, era Chimbo homem prudente e hábil, não lhe faltava treita política. Imagine-se a reação do velho senador se ele entrasse em guerra com a Igreja, surrando-lhe um cura para desagravar mulheres-damas! Ao demais, o padre tinha suas razões para tamanha birra. Ao tratá-lo de “Nero em ceroulas”, queria referir-se à noite em que, trajando apenas listadas cuecas, tivera o ilustre intendente de assim atravessar a cidade pois o vigário vinha de surpreendê-lo em avançado idílio com a cândida Maricota, estimável doméstica a assegurar os serviços de cama e mesa do sacerdote, sua ovelha favorita.