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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 18)

18

O major adiantou-se, seguido por alguns amigos, os mais sensíveis a tais brincadeiras de mau gosto. A travessia do corredor, a caminho da porta da rua, foi longa e épica, verdadeiramente inesquecível, Édio e Lev a recordariam vida afora. Pescoções, pontapés, esbarros e quedas. Dona Aurora desejava arrancar os olhos dos dois rapazes, o major contentou-se com atirá-los à rua, em meio ao povo do sereno (e em cima dos corpos caídos jogaram o serrote cada vez menos sonoro).

Com Vadinho e Mirandão nada disso sucedera, nem o major nem dona Aurora tiveram a mais leve suspeita. Comeram e beberam do bom e do melhor, Vadinho arrastando o pé de valsa pela sala, Mirandão a interrogar-se se devia ou não erguer, em nome de Chimbo, um brinde ao major e a dona Aurora. Sorria na cadeira, ouvindo dona Rozilda perguntar quem era o moço dançarino, cavalheiro de sua filha. Para obter maior efeito, respondeu com outra pergunta:

– O major não lhe apresentou?

– Não. Eu estava lá dentro, não vi quando ele chegou.

– Pois, estimada senhora, tenho o prazer de lhe informar. Trata-se do doutor Waldomiro Guimarães, sobrinho do doutor Aírton Guimarães, delegado auxiliar, neto do senador…

– Não me diga que é do senador Guimarães, esse tão falado…

– Desse mesmo, minha distinta. O mandachuva, o bamba, o bambambã, o deus-menino da política, esse mesmo, meu padrinho…

– Seu padrinho?

– De crisma. E avô de Vadinho…

– Vadinho?

– É o apelido dele, de menino. É o neto preferido do senador.

– É estudante?

–Não já lhe disse que é doutor? Formado, minha senhora, advogado. Oficial-de-gabinete do governador, alto funcionário municipal, fiscal…

– Fiscal do consumo? – aquela informação excedia os sonhos mais temerários de dona Rozilda.

– Fiscal de jogo, minha ilustríssima. – E em voz cochichada: – É a fiscalização que deixa mais, uma fortuna por mês, sem falar nos agrados, uma fichinha aqui outra acolá… E, agora, ainda por cima, encarapitado no gabinete do governador…

Sentia-se generoso:

– A senhora não tem algum parente pobre que deseje empregar? Se tiver, é só dizer, dar o nome… – Respirou fundo, contente consigo mesmo, prosseguiu indômito: – Está vendo ele ali, dançando? Pois não se admire se na próxima eleição ele sair deputado…

– Tão novo ainda…

– O que é que a senhora quer? Nasceu em berço de ouro, encontrou o prato feito, seu caminho é de rosas. – Mirandão sentia-se um poeta nessa noite de glória, improvisaria um discurso monumental, arrancando lágrimas à própria dona Aurora, a fera do Rio Vermelho.

Dona Rozilda acertou os olhos miúdos, uma chama de ambição, amarela, a brilhar em sua frente. Joãozinho Navarro arrematava o tango nuns floreios caprichados, Vadinho e Flor sorriam um para o outro. Dona Rozilda estremeceu de emoção: jamais vira assim a face da filha, e bem a conhecia. E o rapaz – perguntava-se ela – , fora ele também atingido e para sempre marcado? Havia na face de Vadinho um ar de inocência, uma candura, tal sinceridade; dona Rozilda sentiu-se comovida. Ah!, milagroso Senhor do Bonfim, seria aquele o genro rico e importante que os céus lhe destinaram? Ainda mais rico e importante do que o paraense Pedro Borges, com suas léguas de terra e de rio, suas dúzias de empregados. Um genro neto de senador, íntimo do governo, ele próprio governo: “Ai, minha Nossa Senhora da Capistola, valei-me! Concedei-me, meu Senhor do Bonfim, a graça desse milagre e acompanharei descalça a procissão da lavagem, levando flores e uma quartinha de água pura”.

O major aproximava-se, dona Rozilda agradeceu a Mirandão, dirigiu-se ao dono da casa, apontou o grupo formado por Vadinho e Flor, dona Lita e Porto, num canto da sala. Mirandão observou a manobra da velha lambisgóia, fez um esforço, pôs-se também de pé, foi por uma cerveja. Dona Rozilda pedia ao major:

– Major, me apresente àquele moço…

– Não conhece? Pois é um parente do doutor Aírton Guimarães, o delegado auxiliar, meu amigo do peito… – Sorria vaidoso, acrescentando: – Para os íntimos, Chimbo… Ele mesmo me disse: “Pergentino, trate-me de Chimbo, somos amigos ou não?”. Homem sem besteira, direito… Me fez um favorzão… – falava para todos, alardeando sua amizade com o delegado.

Dona Rozilda apertava a mão do jovem, Flor esclarecia:

– Minha mãe, doutor Waldomiro…

– Vadinho para os amigos…

– Doutor Waldomiro vive à sombra do nosso eminente chefe, o governador. Trabalha em seu gabinete…

– O governador gosta muito do senhor, major. Ainda hoje me disse: “Dê um abraço em meu amigo Pergentino, amigo do peito…”.

O major chegava a ficar vexado de felicidade:

– Obrigado, doutor…

Porto, a quem tal intimidade palaciana deixava um pouco tímido, comentou:

– Muita responsabilidade… Mas também muita importância…

Vadinho fazia-se modesto:

– Tolice… Nem sei se vou continuar no palácio…

– E por quê? – quis saber dona Lita.

– Meu avô – confidenciou Vadinho – , o senador…

– O senador Guimarães… – rezou baixo dona Rozilda.

Sorriu-lhe Vadinho, uma aura de candura a circundar-lhe o rosto, sorriu melancólico para Flor, tão linda:

– Meu avô quer que eu vá para o Rio, oferece-me um lugar…

– E o senhor vai aceitar? – morria Flor nos olhos de azeite.

– Nada me prende aqui… Ninguém… Sou tão sozinho…

Suspirava Flor:

– Tão sozinha…

Da sala de jantar reclamavam o major, ele não tinha momento de descanso, a atender seus convidados, perfeito anfitrião. Alguém apareceu logo depois batendo palmas, rogando silêncio, o dr. Miranda ia saudar os donos da casa. Ouviu-se o estouro de uma garrafa de champanha sendo aberta, a rolha subindo para o teto.

Vadinho e Flor andaram sorridentes para o discurso, “discurso de Mirandão”, alertou Vadinho, “não é coisa que se perca”. Dona Rozilda, o coração aos saltos, comentou para dona Lita e Thales Porto ao ver os jovens partindo para o definitivo idílio:

– Não é um par perfeito? Não parecem nascidos um para o outro? Se Deus quiser…

– Oxente, mulher! Conheceram-se hoje e vosmicê já está armando casamento? – Lita balançou a cabeça, sua irmã estava ficando mesmo doida, com aquela mania de noivo rico para a filha.

Dona Rozilda empinou o busto seco, fitou a pessimista, com arrogância. Da sala de jantar chegava, redonda, encharcada de cerveja, a voz do orador, em seu brinde de saudação. Para lá encaminhou-se a viúva, toda coberta de esperanças. Palmas saudavam uma frase feliz de Mirandão, ele prosseguia impávido:

– “Nas páginas imortais da história, senhoras e senhores, ficará gravado em fulgentes letras de ouro o nome honrado do major Pergentino, cidadão de virtudes exponenciais” (a voz ficava vibrando no ar ao dizer a palavra bonita), “e o nome de sua nobilíssima esposa, esse ornamento da sociedade da Boa Terra, dona Aurora, anjo… Sim, meus senhores e minhas senhoras, anjo de impolutas” (e repetia, a voz cantante, “impolutas”) “qualidades, esposa dedicada, virgem de bronze…”

No centro da sala, Mirandão, o penetra, o braço erguido a empunhar a taça de champanha, dominava convidados e donos da casa, todos presos à sua eloqüência. O major sorria beato; a dedicada esposa, a virgem de bronze, baixava os olhos, comovida, jamais sua festa alcançara as alturas daquele triunfo.

– “…dona Aurora, ser amorável, santa, santíssima criatura…”

As lágrimas queimavam os olhos da santa criatura.

9

O namoro de Flor e Vadinho desembocou direto no casamento, pois noivado não houve, como logo adiante se constatará, exibindo-se causa e razão dessa anomalia a romper os procedimentos habituais e consagrados em todas as famílias que se prezam. Namoro, aliás, dividido em duas etapas distintas, perfeitamente delimitadas, cada uma delas com suas características próprias. A primeira, plácida e risonha, toda azul e rosa, um céu aberto, verdadeira festa, a concórdia universal. A segunda, confusa e perseguida, clandestina, cor do vitríolo e do ódio, o inferno na terra, a malquerença, a repugnância, a guerra declarada. Durante a primeira fase, dona Rozilda esteve irreconhecível de tanta gentileza e compreensão; colaborou ativa e devotada para o sucesso do idílio. Viu-se depois dona Rozilda a espumar abominação, rancor e vingança – espetáculo talvez pitoresco mas pouco agradável – , disposta a empregar todos os recursos para impedir o matrimônio da filha com aquele tipo imundo – “verme, pústula, poça de pus”. Toda essa podridão – “verme, pústula, poça de pus” – era Vadinho, antes o mais perfeito rapaz solteiro da Bahia, o pretendente ideal, belo e simpático, coração generoso, pérola de moço, impoluto caráter, adamantino.

No ledo engano nascido da emaranhada novela posta de pé por Mirandão na festa do major Tiririca, confirmada e desenvolvida graças a imprevistas circunstâncias, permanecera feliz dona Rozilda cerca de dois meses, dois memoráveis meses quando calcou sob o tacão dos sapatos toda a ladeira do Alvo e adjacências, da negra Juventina com seus ares de senhora até o dr. Carlos Passos com a sua próspera clientela. Exibia influência, intimidade nos círculos governamentais, nas altas esferas, intimidade com o poder, personificado em Vadinho. E exibia sobretudo o moço namorado da filha, com sua elegância cafajeste, sua lábia, sua conversa bonita, sua prosopopéia. Vadinho se lhe afigurava um deus-menino, era tudo para ela. E para ele tudo era pouco, dona Rozilda agitava-se num afã de agradar, de cativar o rapaz, de amarrá-lo.