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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 20)

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Cada vez mais gentil, o secretário tornou-se confidencial:

– O que estou lhe dizendo… A primeira coisa que o diretor fez ao chegar… Alguém muito elevado deu ordens, certamente. Foi uma das últimas vagas e estavam todas reservadas… Quer um conselho? Vá logo se apresentar, não perca tempo.

Apresentou-se, tomou posse, reuniu a magra família e foi ao primeiro andar do Alvo agradecer. “Alguém muito elevado”, contou; e dona Rozilda repetia as palavras rolando-as na língua, saborosas, enchia a boca com elas, tinham um gosto de poder. Vibrava de contentamento: não esperara nomeação tão rápida, resultado tão fulminante. Com aquela urgência, tão depressa, só mesmo ordens diretas do governador. Do governador minha filha, e não de outro, Vadinho mandava e desmandava no governo.

A notícia fez seu curso na ladeira, e quando Vadinho apareceu à noite, na esperança de ficar a sós, com Flor, no escuro da escada, foi saudado pela vizinhança numa quase manifestação de apreço. Surpreendeu-se com os agradecimentos, abraços e louvores, dona Rozilda num exagero histérico. O rapaz passara o dia dormindo e quase esquecera as desventuras da inexeqüível candidata. “Oh!”, disse “não é nada, nada me devem, por favor!”

O poeta cumprira a promessa, feita mais a Andreza do que a ele, Vadinho. Mas, como explicar a verdade, desfazer o enredo? Jamais dona Rozilda e seus vizinhos, jamais a amarga professora e sua gente mirrada e encardida, cor de sujo, ali junta para lhe agradecer, jamais compreenderiam os intrincados caminhos por onde o mundo e os homens andam, jamais acreditariam dever Célia sua nomeação a uma negra cozinheira, muito mais pobre que ela, alegre num casebre de madeira na fímbria do mar de Água de Meninos, a fornecer almoços a saveiristas e a carregadores, a negra Andreza de Oxum.

A fama correu e os pedidos choveram. Implorando nomeação de professora primária somaram-se oito em menos de uma semana. De motorneiro de bonde a fiscal de rendas não houve cargo sem candidato a adular dona Rozilda, sem bater palmas na porta do sobrado na ladeira do Alvo. Até o emprego de sacristão na igreja da Conceição da Praia, a vagar segundo constava mas ainda não era certo, até esse lhe vieram pedir. Nem se Vadinho fosse ao mesmo tempo governador e arcebispo, nem assim daria abasto.

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Tocava dona Rozilda os cimos do poder, sentia o gosto sem igual da fama; Vadinho tocava os seios rijos de Flor no escuro da escada, sentia o gosto sem igual da boca medrosa e sedenta da moça, mordia-lhe os lábios. Revelava-lhe um mundo apenas suspeitado de prazeres proibidos, ganhando a cada noite de namoro uma parcela de sua resistência e de seu corpo, de seu pudor, de sua oculta emoção. O desejo a consumia numa fogueira de altas labaredas, ardiam brasas em seu ventre, mas Flor buscava conter-se e coibir-se. Sentindo-se, entretanto, dia a dia menos senhora de sua própria vontade, de recusa frágil, de relutância débil, submissa escrava do rapaz audacioso, que já se apoderara de quase todo o seu corpo queimado de uma febre sem remédio, ai, sem remédio.

Insolente Vadinho! Não lhe declarara amor, não fizera praça de sentimentos apaixonados, não lhe pedira sequer autorização para namorá-la. Em vez de frases poéticas, de termos alambicados, ela ouvia duvidosos conceitos, insinuações mal-intencionadas. Subindo a ladeira do Alvo, na pista de Flor (cujo retorno da casa de tia Lita, no Rio Vermelho, dera-se dias após a festa de Pergentino), o petulante, ao ler o anúncio da escola de culinária, murmurou-lhe ao ouvido, num sussurro romântico de quem lhe fizesse inocente galanteio:

– Escola de Culinária Sabor e Arte… – Repetiu: – Sabor e Arte… – Baixou a voz, o bigodinho roçando a orelha da moça: – Ah!, quero saborear-te… – não apenas um trocadilho de mau gosto mas também franco aviso de suas intenções, deslavada plataforma, claro programa de namoro.

Flor nunca tivera um namorado assim, tão diferente dos outros, nem imaginara namorar daquele jeito. Como não o mandou imediatamente embora?

Não era Flor uma dessas debochadas janeleiras, de idílio escandaloso nos cantos de rua, nos pés de escada, no esconso das portas. Jamais gaiato algum fora além de tímido beijo, Pedro Borges apenas aflorou-lhe a face, ela não admitia intimidades. Bastava o atrevido estender a mão na ousadia de tocá-la, e Flor enchia-se de indignação e o expulsava, como a guardar-se por inteiro para aquele a quem realmente amasse. A esse, sim, nada recusaria, e esse era Vadinho; eis por que não o despachou como aos outros, sem grosseria nem escândalo mas firme e inflexível.

Não o repeliu sequer da primeira vez e, no entanto, conheciam-se apenas há algumas horas, pois foi no domingo do Bando Anunciador, no dia seguinte ao da festa em casa do major Tiririca. Em companhia de amigas, viera Flor apreciar os blocos, Vadinho apareceu e encostou. As outras afastaram-se, entre risinhos, certamente chegara a hora da indispensável declaração (declaração mais ou menos veemente e florida conforme o temperamento e a veia do pretendente; alguns mais timoratos preferiam fazê-la em carta, utilizando, quando necessário, a ajuda do Secretário dos amantes). Elas vinham mesmo comentando o chamego do rapaz: não largara Flor sozinha na festa, seu par constante. Ia agora declarar-se, era um momento grave: cabia à moça logo conceder o sim ou pedir tempo para melhor reflexão, em geral vinte e quatro horas. Flor anunciara às amigas seu propósito de deixar Vadinho padecer uns dias mas as outras duvidaram, teria ela coragem para tanto?

Não abriu ele a boca para fazer declaração alguma, a conversa girou divertida em torno de motivos diversos, um doudivanas esse Vadinho! Dois animados blocos carnavalescos, em desafio, juntos se encontraram no oitão da igreja de Santana e, aproveitando-se do atropelo estabelecido quando o povo acorreu e ali se comprimiu, Vadinho a apertou contra si, abraçando-a por detrás, cobrindo-lhe os seios com as mãos, beijando-lhe sôfrego o cangote. Ela estremeceu apenas, semicerrou os olhos, deixou-o fazer, quase morta de medo e de alegria.

Os dias iniciais desse namoro sem declaração formal e sem formal consentimento, foram inesquecíveis. Todos os anos, no verão, na oportunidade das festas do bairro, costumava Flor passar uns tempos com os tios, aos quais era muito afeiçoada. No mês de fevereiro a escola de culinária não funcionava.

Vinha para a procissão do presente a Iemanjá, a 2 de fevereiro, quando os saveiros cortam as ondas carregados de flores e dádivas para dona Janaína, mãe das águas, da tempestade, da pesca, da vida e da morte no mar. Ofertava-lhe um pente, um frasco de perfume, um anel de fantasia. Iemanjá habita no Rio Vermelho, seu peji ergue-se numa ponta de terra sobre o oceano.

Em companhia das moças do bairro, divertia-se em intenso e festivo programa: pela manhã banho de mar; passeios à tarde no Farol da Barra e em Amaralina, por vezes iam até a Pituba; a organização e os ensaios da prancha de Carnaval – alegre trabalheira; piqueniques em Itapuã, em casa do dr. Natal, médico amigo de tio Porto, ou na lagoa do Abaeté, com violas e cantigas; batalhas de confete. À noite circulavam no largo de Santana ou na Mariquita, por entre as barracas coloridas, quando não havia dança programada em residência de família amiga ou elas próprias não invadiam e ocupavam uma sala de visitas, improvisando um assustado.

A casa de Porto, florida de trepadeiras e acácias, ficava na ladeira do Papagaio, e aos domingos, invariável, o tio saía com outro amante da pintura, residente no largo, um senhor sergipano, acanhado como ele só, um certo José de Dome; saíam a desenhar casarios e paisagens. Uns dois anos antes, quando da partida de Rosália e Antônio Morais para o Rio, Flor, sozinha e triste, chegara a sentir uma vaga inclinação pelo pintor, já homem maduro, de seus quarenta anos se bem aparentasse menos, caboclo rijo e seco. Propusera-lhe ele um dia, vencendo a extrema timidez, pintar-lhe o retrato e o iniciara, numa tela de ocres e amarelos lancinantes onde a cor mate de Flor ressaltava transfigurada. “Negócio de maluco, um disparate, aliás esse fulano é leso”, definiu dona Rozilda, que em matéria de arte não ia além do cromo das folhinhas, ao ver aquela explosão de tinta e luz. Nunca chegaria José de Dome a concluir o retrato, no entanto. Não houvera tempo, Flor retornara à ladeira do Alvo, e, se bem prometesse vir posar aos domingos, jamais o fez; tampouco ela entendia a pintura do sergipano. Simpatizava, sim, com seu sorriso e sua solidão. Mas aquele sentimento nem chegara a ser namoro, pois não se pode chamar namoro aos longos silêncios e aos breves sorrisos das horas de pose. Não passara de efêmera inclinação a durar apenas os dias de veraneio, incapaz sequer de romper o acanhamento do artista. Ao voltar ao Rio Vermelho, Flor reencontrou o amigo do tio com a mesma cordialidade, mas fora quebrado o encanto daquelas férias anteriores, era como se nada houvesse acontecido entre eles. Quanto ao retrato por acabar está até hoje na parede do atelier do pintor, no terceiro andar de um velho sobradão, na esquina do largo de Santana; quem quiser pode vê-lo, é só tomar coragem e subir as carunchosas escadas.