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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 22)

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O encontro com Flor, na festa do major, veio reacender-lhe de súbito aquela necessidade antiga de lar, de vida de família, mesa posta, cama de lençóis limpos. Ele não tinha sequer endereço estável, mudando de pensão barata a cada mês por falta de pagamento. Como esbanjar dinheiro em aluguel quando sobrava tão pouco para o jogo?

Flor trazia um novo sabor à sua vida, uma quietude, uma placidez, um gosto de ternuras familiares:

– Gosto de você porque você é mansa como um bichinho, meu bem…

De tal forma seduzido por ela, a ponto de suportar-lhe a mãe, velha mais terrível e paulificante, ridícula e desfrutável. Amava a singeleza da moça, sua mansidão, sua alegria sossegada, e sua compostura. Lutando diariamente para derrubar-lhe a resistência e romper-lhe a castidade, sentia-se, no entanto, contente e orgulhoso com ela ser assim recatada e séria. Porque só a ele competia domar esse recato, reduzir a prazer aquela pudicícia. Os amigos de Vadinho descobriam um brilho em seus olhos, acontecendo-lhe ficar parado ante a roleta, esquecido de depositar a ficha, sonhador.

E os íntimos, como Mirandão, já não se surpreenderam quando, pelo Carnaval, o viram integrando a prancha dos Alegres Gazeteiros, prancha organizada pelas famílias do Rio Vermelho, decoração do tio Porto, moças e rapazes fantasiados de vendedores de jornal, mercando o Diário da Bahia e A Tarde, o Diário de Notícias e O Imparcial. Um Carnaval de confete e mamãe-sacode, de serpentina e canções, onde lança-perfume era para consumir nas namoradas e não para aspirar-se, um Carnaval sem cachaça. O oposto dos Carnavais de Vadinho, que emendavam do sábado à terça-feira num porre só. Integrando blocos de mascarados, às voltas com as raparigas, a sambar no meio da rua, a bebida a la vontê. Caindo de bêbado nos fins das noites num fovoco qualquer da zona; assim nos quatro dias.

“Olhe quem vai ali, naquela prancha, de pandeiro na mão, é Vadinho saindo em prancha, quem diria!”, admiravam-se passantes habituados a vê-lo em deboche completo na folia do Carnaval. Lá estava Vadinho, ao lado de Flor, a cobri-la de confetes e ternura.

Nada disso o impedia, no entanto, de chafurdar na mais baixa gandaia, de ingerir uma cachaça absurda, após ter-se despedido de Flor, à meia-noite. Saía direto para o Tabaris, o Meia-Luz, o Flozô. Na segunda-feira pretextou trabalho urgente em palácio, foi-se às dez da noite, não podia chegar tarde ao grande baile da Gafieira do Pinguelo onde Andreza e outras reais crioulas fantasiavam-se de damas da corte de Maria Antonieta, gastando cetins e veludos, alvas cabeleiras de algodão.

Nem mesmo no momento de paixão mais alta, de maior doçura familiar, de pensamentos mais domésticos, Vadinho imaginou sequer mudar sua vida, modificá-la, adquirir novos hábitos, regenerar-se. Mirandão ameaçava fazê-lo, de quando em vez:

– Seu mano, vou me regenerar… De amanhã em diante…

Vadinho jamais falou nisso. Apaixonado por Flor, projetando casar-se com ela, mas nem assim disposto a fugir a seus solenes compromissos, a seu cotidiano de jogo e malandragem, de bebedeiras e arruaças, de cassinos e castelos.

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Mar de rosas, francos horizontes, azul cerúleo, a paz do mundo e sua doçura, Flor e Vadinho namorados. De súbito, a borrasca, o temporal, céu de chumbo, guerra sem quartel, a abominação, Flor e Vadinho proibidos.

Um tanto encafifado por sentir-se com culpa nos acontecimentos – não fora ele quem começara a montar aquele castelo de cartas, incapaz de resistir ao sopro da menor sindicância? – , Mirandão, moralista com fumaças de filósofo, considerou:

– Aí está… Que garantia a gente tem? Nenhuma… Até motor de caminhão, quando se conserta, tem garantia de seis meses… A gente, quando pensa que está instalado na vida, que as coisas finalmente se acertaram, aí emboceta tudo, o santo cai do andor e vira lixo…

No opinar de Mirandão, Vadinho caíra do andor, o santo virara lixo, os restos espalhados nos monturos, e não havia remendo capaz de restaurar o conceito do demissionário oficial-de-gabinete ante dona Rozilda. Conceito aliás igualmente comprometido junto a Flor, como haveria ela de ainda aceitar o potoqueiro que a engabelara? Mirandão conhecia essas pessoas mansas e suaves: quando abusadas em sua confiança, crescem em obstinado orgulho, não voltam atrás.

– Quando empombam, empombam de vez… – concluía pessimista.

Vil, ordinário, abjeto, infame sujeito! Dona Rozilda achava a língua pobre de expressões suficientemente varonis e vigorosas para rotular tão baixo espécime humano – ainda na véspera o pretendente ideal, santo no andor todo enfeitado de elogios. Sua filha podia casar até com um soldado de polícia, até com um criminoso de morte, de sentença passada no júri, cumprindo pena na cadeia, jamais com o miserável canalha. Recolhendo pelas imediações do Alvo essas cruas opiniões, Mirandão balançara a cabeça pesaroso e realista: se Vadinho pensava em prosseguir o namoro é porque não entendia nada de mulheres. Sempre tão ladino, agora cego pela paixão, não se dava conta da realidade: desbundara tudo. Mirandão, aflito, reclamou um novo trago no Bar Triunfo: para suportar tanta comoção.

A Vadinho pouco importava restaurar seu conceito ante dona Rozilda, aplacar sua fúria, velha levada dos diabos, bruaca intolerável, um purgante. Não admitia, porém, romper com Flor, perder seu riso manso, sua quieta ternura, seu machucado suspiro. Ao contrário, agora decidira casar-se com ela. Afinal, em tudo aquilo, só havia de sério o carinho, a compreensão, o bem-querer, aquele amor dos dois; o resto não passava de tola brincadeira. De quem gostava Flor: dele, Vadinho, de sua pessoa, ou do cargo inventado, da posição que não exercia, do dinheiro que não tinha?

Naquela história só uma coisa o desgostava: haver sido desmascarado por Célia, sua protegida, aquela perneta agora professora pública devido à sua interferência. Fora ela a fazer todo o fuzuê, a desenrolar o novelo, a denunciá-lo a dona Rozilda. Chegara ofegante ao primeiro andar, numa excitação tamanha a ponto de quase perder a voz. Num tal contentamento, só se vendo.

“Alguém muito elevado?” Jamais subira o vigarista sequer as escadas do palácio, o único palácio que ele conhecia, e a esse conhecia bem, era o Pálace, antro de jogo e perdição, assim de mulher-dama… Prestígio? Só se fosse nas ruas do meretrício mais baixo, junto às casteleiras e aos escroques… Oficial-de-gabinete do governador? Se ele se atrevesse a entrar no gabinete do governador seria tomado preso, metido no xadrez. Sua nomeação de professora? Era melhor nem pensar nisso, quem sabe dos estrupícios e tratantadas postos em prática pelo patife?

E como fora Célia, insignificante professora primária, descobrir toda aquela rede de enganos, pondo a claro todos os detalhes da farsa, não deixando persistir uma sombra sequer de dúvida, um pode-ser-quem-sabe ao qual se agarrasse dona Rozilda, náufraga no mar da porca existência? Por que tamanho empenho em desmascarar e denunciar o trapaceiro, o barato sedutor?

Vadinho se surpreendeu, magoado:

– Logo quem… Não fiz mal nenhum a essa moça, ao contrário…

Por isso mesmo, talvez. Quando Vadinho lhe arranjou o emprego, Célia sentiu-se ao mesmo tempo grata e ofendida. No fundo, não lhe perdoava ter-se enganado a seu respeito, não ser ele o gigolô pressentido por seu faro de azedume e maldade: a existência reles fizera-a invejosa e ruim. A cada dia, menos grata e mais ofendida – aquele indivíduo não tinha jeito de prestar… Por acaso, deram-lhe uma pista e ela tanto futucara, tanto xeretara até descobrir em todas as minúcias a teia de mentiras iniciada por Mirandão em casa do major e por cujo crescimento era mais responsável a vida do que o próprio Vadinho. Refeitos os capítulos daquele imaginoso folhetim, Célia sentiu-se realizada: não a enganavam assim facilmente, tinha olho e faro, para tapeá-la fazia-se necessário mais do que emprego, nomeação e posse. Satisfeita, feliz com sua torpeza, nem lhe pesava a perna manca ao subir a escada do primeiro andar onde dona Rozilda e Flor costuravam peças do enxoval. “Não passava o almofadinha de um mísero gigolô, ela, Célia, jamais tivera dúvidas.” Resplandecia seu encardido semblante, poucas vezes se sentira assim alegre, muita gente ia chorar naquele dia, arrenegar o diabo, ranger os dentes. E existe no mundo algo tão esplêndido e excitante, espetáculo comparável ao do sofrimento alheio? Para Célia não existia nada igual. Jamais um homem olhara para seu corpo com olhos de desejo, jamais alguém lhe sorrira com amor, e as crianças da escola tinham-lhe medo, fugiam dela.

Dona Rozilda, em faniquito, propunha-se a matar e a morrer, gemia por um copo com água. Flor não lhe deu importância, não ouviu seus ais, ocupada com Célia:

– Puxe daqui, sinhá cachorra, não volte mais…

– Eu, Flor? Você está falando sério? Por quê?

– Mesmo que ele fosse o que você diz, você não podia vir fuxicar, ele lhe empregou… Você devia era esconder o que soubesse contra ele, estava morrendo de fome e ele lhe arranjou o lugar…

– E eu sei lá se foi ele… Quem viu ele arranjar? Pra mim, foi a carta do padre Barbosa…