Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 23)
Flor quase não elevava a voz mas suas palavras cuspiam nojo e desprezo:
– Puxe daqui antes que eu lhe ensine a não se meter na vida dos outros, cadela vagabunda…
– Pois fique com ele, que lhe faça bom proveito, tu nasceu mesmo pra descarada…
Baixou a escada a clamar contra a ingratidão humana.
Guerra, sim; que outro nome, que outra designação usar?, e guerra sem misericórdia – a guerra entre dona Rozilda e Flor teve começo ali mesmo, naquela mesma hora. Ao ruído da porta batendo na cara de Célia, dona Rozilda recolheu seus melindres, desistiu do desmaio, clamou pela professora, queria continuar a conversa sobre Vadinho, remexendo na ferida:
– Célia! Célia! Não vá s’embora…
Flor disse, a voz pesada:
– Botei ela pra fora…
– Ela veio fazer um favor e você enxota ela, em vez de agradecer.
– Essa fuxiqueira nunca mais me põe os pés aqui.
– Desde quando tu manda nesta casa?
– Se ela entrar, eu saio…
Mirandão acertara ao descrever o baixo crédito de Vadinho junto a dona Rozilda. Errou, porém, e por completo, quanto à reação de Flor. Não ficara contente, é claro, tivera um desaponto: Vadinho mais sem jeito, para que essas mentiras? Em nenhum momento, entretanto, pensou em romper com ele, em terminar o namoro. Amava-o, pouco lhe importando seu ofício ou emprego, sua posição na sociedade, sua importância na política.
Assim lhe disse quando, naquela noite, num desafio impudente às ordens de dona Rozilda, foi conversar com o namorado numa esquina próxima. Ouviu e aceitou suas explicações, derramou algumas lágrimas, a chamá-lo de “maluco, sem juízo, meu doido lindo”. Pela primeira vez Vadinho lhe falou de amor, de como esfomeado e sequioso a queria e desejava – e para esposa a queria e desejava. E isso para Flor valeu todo o aborrecimento, a mágoa dele lhe ter mentido e enrolado sem necessidade.
Teriam de esperar com paciência, disse-lhe Flor. Pelo menos os dez meses que faltavam para os seus vinte e um anos; era ainda menor, sob o mando materno, e nem pensasse Vadinho em obter o impossível consentimento de dona Rozilda. Nunca vira a mãe tão exaltada e em fúria. Mesmo os encontros não iam ser fáceis, tinham de estudar a melhor maneira de se avistarem sem que a velha suspeitasse. O namoro – aquele namoro com tantas facilidades, tão bem-aceito e apadrinhado por dona Rozilda – passara aos subterrâneos da ilegalidade, estava proibido em definitivo, a cotação de Vadinho na ladeira do Alvo não valia a poeira da rua. Vadinho enxugou-lhe as lágrimas com beijos, ali mesmo na esquina, sem ligar aos passantes.
Bufando, dona Rozilda a aguardava de taca na mão, pedaço de couro cru para exemplar animais e filhos desobedientes. Não era usada há muito, quem dela fizera gasto fora Heitor, relapso estudante. Rosália levara suas tacadas, Flor algumas surras quando menina. Suspensa na parede da sala de jantar, a primitiva chibata agora valia apenas como símbolo cruel da autoridade materna, caído em desuso. Quando Flor transpôs a porta, dona Rozilda ergueu a taca, a primeira chicotada a atingiu no colo e no pescoço deixando-lhe um lanho vermelho, marca de guerra a perdurar por mais de uma semana.
Apanhou sem chorar, defendendo o rosto com as mãos, reafirmando seu amor. “Comigo viva tu não casa com ele”, rugia dona Rozilda. No outro dia, Flor quase não pôde levantar-se, o corpo todo doído, o lapo roxo no pescoço. A ladeira em peso comentava os acontecimentos, a negra Juventina, soberana em sua janela, a distribuir detalhes, dr. Carlos Passos criticando os métodos educacionais de dona Rozilda, se bem não lhe negasse razão para desgosto e zanga.
Vadinho compareceu na hora costumeira; todo o primeiro andar mantinha-se fechado, a sacada vazia, a porta da escada de ferrolho e tranca. A janela do quarto de Flor dava sobre a rua transversal, por entre as venezianas fugiam réstias de luz. Logo houve quem contasse da surra da véspera, segundo as comadres, Flor suspirava presa no quarto, de chave passada.
Vadinho concordou com a negra Juventina quando a amásia de Antenor Lima definiu dona Rozilda com justeza e literatura: “Uma hiena bestial, é o que ela é, seu Vadinho”; ouviu as notícias em silêncio, disse até logo, foi-se embora.
Para volver depois de meia-noite e abrir todas as janelas das redondezas, acordar a ladeira e as ruas próximas com a mais maviosa serenata, tão maviosa e apaixonada como muito poucas até hoje se fizeram nessa ou em qualquer outra cidade. Quem a escutou guarda sua lembrança imperecível nos ouvidos e no coração.
Também, pudera! Vadinho reunira para Flor o melhor de quanto existia. Trouxera o magrelo Carlinhos Mascarenhas, o cavaquinho de ouro; fora buscá-lo no castelo de Carla, no aconchegado leito de Marianinha Pentelhuda. Ao violino, via-se a figura popular de Edgard Cocô, o
Ao pé da ladeira, detiveram-se por uns minutos; o violino de Edgard Cocô soluçou os primeiros acordes, dilacerantes. Entraram a seguir o cavaquinho, a flauta, o violão – e Caymmi abriu o eco, soltou a voz em dueto com Vadinho, cujos gorjeios não valiam lá grande coisa. Grande era sua causa, sua paixão proibida: o desejo de desagravar a namorada, curar suas tristezas, apaziguar seu sono, trazer-lhe o consolo da música, prova de seu amor:
A modinha de Cândido das Neves subia a ladeira mais depressa do que eles, apareciam cabeças curiosas, demoravam-se à janela presas ao fascínio da música, à voz de Caymmi. A negra Juventina batia palmas aplaudindo, era do partido de Flor e de Vadinho e doida por serenatas. Alguns despertavam com raiva, na idéia de protestar, mas a doçura da canção os vencia, adormeciam ouvindo o chamado de amor. Dr. Carlos Passos foi um desses: saltou da cama numa sanha assassina, seu dia era trabalhoso, começava no hospital às seis da manhã e por vezes só volvia à casa às nove da noite. Mas entre o quarto e a janela foi-se aplacando sua ira e trauteava a melodia ao debruçar-se no beiral para ouvir mais cômodo.
Estavam parados agora embaixo da luz de um poste, bem na esquina fronteira ao sobrado. Vadinho destacara-se um pouco do grupo para melhor situar-se sob o foco elétrico e mais facilmente ser visto por Flor. Os sons da flauta do dr. Silveira subiam pela parede, os ais do cavaquinho penetravam na sacada, o violino de Edgard Cocô abria as janelas do quarto da moça, ia arrancá-la da cama num estremecimento. “Deus do Céu, é Vadinho!” Correu para a janela, suspendeu a veneziana, lá estava ele sob a luz, os loiros cabelos, os braços estendidos para o alto:
Alguns notívagos juntavam-se a escutar, Cazuza Funil saíra vestido num velho pijama, atraído pela música e pela possibilidade de alguma garrafa em mão dos seresteiros.
Na sacada do primeiro andar, surgindo da escuridão, apareceu dona Rozilda, sua cólera cortou a música e a poesia:
– Vadios! Vagabundos!
Mais alta a canção, a voz de Caymmi subia para as estrelas:
Onde encontrara Flor aquela rosa de tão vermelha quase negra? Vadinho a recolhia no ar, noite romântica de namorados, no céu a lua amarela e um perfume de alecrim, toda a ladeira a cantar em coro para Flor presa em seu quarto:
Desembocava dona Rozilda na porta da rua, escancarando-a, desfeito o coque, envolta numa bata enxovalhada e em ódio. Varou para o grupo, num desvario de fúria:
– Fora, fora daqui! – gritava em desespero. – Chamo a polícia, dou queixa na delegacia, cachorros!
Tão inesperada e violenta aparição – por instantes eles perderam o aprumo, sustiveram o canto. Dona Rozilda ergueu-se vitoriosa na rua em silêncio:
– Fora! Cambada de cachorros, fora!
Mas foi só um instante. Logo a flauta do dr. Silveira fez ouvir um som como um riso de mofa, como o assovio de um moleque, musiquinha mais de deboche e de sotaque: