Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 25)
Suspendeu o trapo vermelho, Flor desabrochou na brancura do lençol, Vadinho teve uma exclamação de alegre surpresa:
– Mas tu é pelada, meu bem, quase pelada… Que coisa doida e mais linda…
– Vadinho…
Com o seu corpo cobriu-lhe o pudor, ela cerrou os olhos. Rompeu a aleluia sobre o mar de Itapuã, a brisa veio pelos ais de amor, e, num silêncio de peixes e sereias, a voz estrangulada de Flor em aleluia; no mar e na terra aleluia, no céu e no inferno aleluia!
Na manhã daquele dia Flor saíra a ajudar dona Magá Paternostro, aquela ricaça sua antiga aluna, num almoço de aniversário, rega-bofe para mais de cinqüenta pessoas e ainda mesas de doces e salgados pela tarde. Dali partiu para encontrar-se com Vadinho e aconteceu o que tinha de acontecer. Dona Rozilda a fazia no fogão de dona Magá, ela estava empernada com Vadinho em Itapuã.
Daquele dia em diante a vida de Flor foi inventar pre-textos para voltar com Vadinho à casinhola da praia. Recorria a amigas e a alunas: “Se mamãe perguntar se eu saí com você, diga que sim”. Diziam, todas lhe tinham afeição e muitas simpatizavam ativamente com sua causa. Após a aula, uma delas anunciava:
– Vou levar Flor comigo à matinê, a pobre precisa esquecer…
Parecia estar esquecendo, rejubilava-se dona Rozilda. Nos últimos dias Flor já não mantinha a cara tão amarrada, desistira de ficar metida no quarto à espera de vê-lo surgir na rua – ao cafajeste – para então assumir ostensiva a janela, em franca provocação. O não-sei-que-diga demorava-se a tirar prosa no passeio da negra Juventina. Aquela peste e outras descaradas da vizinhança serviam de espoleta para o namoro, de leva-e-traz, dona Rozilda as tinha de olho, um dia lhe pagariam com juros. Flor atirava bilhetes a Vadinho, beijos com a ponta dos dedos. Até dona Rozilda perder a cabeça e explodir em desaforos contra a filha e o tratante, o patife a rir na esquina.
Nos últimos dias, no entanto, dona Rozilda sentira prenúncios de mudança. A atitude de Flor já não era a mesma, já não cantava modinhas tristes, não tinha na boca o tempo todo o asqueroso apelido do namorado, e ele deixara de mostrar-se na rua. Reaparecera o sorriso de Flor, voltara a dar bom-dia e boa-tarde, a responder quando dona Rozilda lhe dirigia a palavra.
Na Baixa dos Sapateiros a eventual amiga recomendava despedindo-se:
– Juízo, hein! – e ria cúmplice.
Riam-se também Flor e Vadinho, enfiavam-se num táxi – sempre o mesmo, pertencia ao Cigano, chofer de praça e velho companheiro de Vadinho – , a toda velocidade no rumo de Itapuã, as mãos agarradas, roubando-se beijos pelo caminho. Cigano ia buscá-los de volta ao crepúsculo, vinham sem pressa, a cabeça de Flor repousando no ombro de Vadinho, os negros cabelos ao sabor da brisa, e uma lassidão, uma ternura – o desejo de continuarem juntos, por que se despediam?
Vadinho, numa exigência crescente, reclamava passar uma noite inteira com ela, não mais lhe bastando tê-la a seu lado e possuí-la; queria adormecer em sua respiração, dormir em seu sono. Também Flor desejava essa noite completa, essa posse mais além dos limites do relógio, da hora contada e cada vez menor para seu anseio.
– Mas… – disse-lhe uma tarde quando ele novamente reclamou – …se eu passar a noite fora não posso mais voltar para casa…
– E para que voltar? A gente se amarra e acabou-se. Tu é que não quis ainda botar tudo em pratos limpos… Não sei por quê.
– E onde vou ficar até o casamento?
Fixaram-se em tia Lita e tio Porto, a casa do Rio Vermelho era um segundo lar para Flor. Tendo assim resolvido, ela, no dia seguinte, após a aula, trancou-se no quarto e arrumou seus teréns, encheu duas malas e um baú. Depois fechou a porta, pôs a chave na bolsa e saiu dizendo que ia até o Mercado de Iansã, na Baixa dos Sapateiros. Ali, Vadinho a esperava com o táxi, mais uma vez Cigano os conduziu mas, dessa vez, só na manhã seguinte retornou a buscá-los.
A uma conhecida, vinda por novidades e costuras, dona Rozilda contou:
– Flor saiu para fazer compras, volta já. Felizmente não fala mais do tipo, anda menos assanhada…
– Acaba esquecendo… É sempre assim…
– Tem de esquecer, queira ou não queira…
A visita demorou-se, a conversar, dona Rozilda contando coisas de uma família recente na ladeira, uma gente de Amargosa.
– Bem, Flor está tardando, vou embora. Lembranças para ela.
Sozinha, dona Rozilda à espera. Primeiro levemente em dúvida, logo inquieta, pela noite sabendo de certeza absoluta que Flor perdera o juízo e fugira de casa. Forçou com um canivete a fechadura do quarto, viu as malas feitas, o baú repleto. A fingida estivera a enganá-la, comportando-se como se houvesse rompido com o canalha, para poder sair desatinada a desgraçar-se. Dona Rozilda ficou de luz acesa a noite toda, a taca ao alcance da mão. Ah!, se ela tivesse a audácia de voltar…
Quando, no outro dia, antes do almoço, a irmã e o cunhado apareceram, Porto todo cheio de dedos, ela fez uma cena daquelas, arrancando os cabelos, fora de si:
– Não quero saber de nada… Aqui não entra mulher-dama, lugar de puta é em castelo…
Dona Lita subiu nos azeites:
– Faça o favor de me respeitar. Flor está em minha casa e minha casa não é castelo. Se você não se importa com a felicidade de sua filha, isso é com você. Eu e Thales nos importamos e muito. Vim aqui para lhe dizer que Flor vai se casar. Se você quiser, o casamento sai daqui, tudo direito e em ordem como deve ser. Se você não quiser, sai de minha casa e com muito gosto.
– Rapariga não casa, se ajunta…
– Escuta, mulher…
De nada adiantaram a dialética de tia Lita e a silenciosa presença de tio Porto. Não assistiria nem daria seu acordo ao casamento, conseguissem autorização com o juiz, se quisessem, revelando toda a bandalheira, exibindo a desonra da ingrata. Não contassem com ela para encobrir a patifaria, para tapar o rombo da descarada.
No dia seguinte viajou para Nazaré, onde o filho a recebeu sem entusiasmo. Ele próprio, Heitor, pensava em casar-se e só não o fizera ainda por não lhe permitir o ordenado.
Disposto a fazê-lo, no entanto, apenas fosse promovido e pudesse economizar alguns mil-réis. Já tinha noiva em vista: uma ex-aluna de Flor, aquela de olhos molhados, que atendia por Celeste.
13
Indo correr no Sodré uma casa anunciada para alugar, Flor deparou com outra ex-aluna sua, dama de realce, esposa de comerciante da Cidade Baixa, dona Norma Sampaio, pessoa muito alegre e novidadeira, bonitona, de cuja bondade natural e generoso coração já se deu notícia anterior. Residia ela nas vizinhanças.
A casa estava na medida das necessidades de Flor, para morada e escola, sendo, ao demais, de aluguel relativamente barato. Pois então se considerasse desde logo inquilina, garantiu-lhe dona Norma; o proprietário do imóvel era seu conhecido, dar-lhe-ia a preferência, com certeza. Deixasse a seu cuidado, não precisava preocupar-se.
Foi dona Norma de muito conforto e consolo em todo aquele transe. Apoderou-se dos diversos problemas da moça e concorreu para a solução de todos eles, a todos deu jeito.
Para começar, levantou-lhe a moral abatida. De quanto se passara Flor lhe fez minucioso relato. Dona Norma saboreava os detalhes, não lhe viessem com história contada às carreiras, pulando pedaços. Flor sofria com a impressão que o mundo inteiro tivera conhecimento de seu mau passo (“mau passo” era a expressão usada por tia Lita, delicadamente), como se ela trouxesse o estigma da mentira estampado no rosto: mulher sem-vergonha, conhecedora de homem e a bancar moça solteira.
– Ora, menina, deixe de ser tola… Quem é que sabe que você deu? Quatro ou cinco pessoas, meia dúzia, se muito e acabou-se… Se você quiser, pode até casar de véu e grinalda e quem é que vai reclamar? Sua mãe viajou; ela, sim, era capaz de vir fazer escândalo na porta da igreja…
Flor não podia ocultar a vergonha, agira mal, mas não tivera outro jeito. Para dona Norma todo aquele horror reduzia-se a nada:
– Isso de dar um pouquinho antes de casar sucede a três por dois e com gente muito boa, minha cara…
Desfiava vasto e curioso noticiário, consoladores exemplos. A filha do dr. fulano, aquele da faculdade, não dera a um amigo do noivo às vésperas do casamento, rompendo o compromisso, fugindo com o outro, casando com ele às pressas? E atualmente não era a nata da sociedade, com o nome nos jornais: “Dona fulana recebeu os amigos… etecétera e tal…”? E aquela outra fulaninha, filha do desembargador, não foi pega dando ao noivo – essa pelo menos dava ao próprio noivo – por detrás do Farol da Barra? O guarda os surpreendeu em flagrante, só não levou os dois para a delegacia porque o diligente cavalheiro soltara a gorjeta alta. Mas exibira a meio mundo a calcinha da sapeca, aliás uma lindeza de rendas negras. Nem por isso, com todo esse desfile de roupa íntima, ela deixou de casar de véu e grinalda, um vestido por sinal belíssimo, a fulana tinha gosto e dinheiro. E aquela outra sicrana – o pai um mata-mouros que nem dona Rozilda, trazendo as filhas num cortado, esbregues medonhos, presas em casa – surpreendida em Ondina, nos matos, a dar a um homem casado, a um compadre de seus pais? Casara depois com um pobre-diabo e agora dava quanto podia, “quanto mais melhor” era seu lema; dava a solteiros e casados, a conhecidos e indiferentes, a ricos e pobres. “Muita gente, minha filha, só não dá antes de casar porque não sabe que é tão bom ou porque o noivo não pede. Afinal, antes ou depois, que diferença faz, me diga?”