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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 26)

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Não apenas minimizou sua falta, devolvendo-lhe o ânimo, como a assistiu e dirigiu nas compras indispensáveis para tornar a casa habitável, móveis e utensílios. Inclusive a cama de ferro, com as cabeceiras e os pés trabalhados, adquirida em segunda mão a Jorge Tarrapp, leiloeiro com loja de antigüidades e velharias à rua Rui Barbosa e, como não podia deixar de ser, amigo de dona Norma. Um bom sujeito, esse Jorge, sírio alto e vermelho, quase apoplético; ao saber do próximo casamento de Flor, ofereceu-lhe de quebra e presente meia dúzia de cálices para licor. Dona Norma concorreu com um par de toalhas de banho e de rosto, toalhas alagoanas, de primeira. E lhe cedeu, pelo preço antigo de custo ou seja quase de graça, sensacional colcha de cetim azul-hortênsia com ramos de glicínias, estampados em lilás, um monumento de chique. Dona Norma a levara em seu pomposo enxoval, peça de resistência, presentão de uns tios residentes no Rio. Pois bem; o maníaco do Zé Sampaio tomara birra da colcha, segundo ele o lindo azul-hortênsia era um roxo funéreo e aquele trapo só servia para cobrir esquifes. Por causa da maldita colcha quase brigam na própria noite do casamento. Não fosse dona Norma estar morta de curiosidade pelo que se iria passar, e teria reagido aos resmungos e às má-criações de Zé Sampaio. Não se conformara ele enquanto a coberta não foi guardada e para sempre. Nunca mais teve uso, nova em folha, na rua Chile, custava um dinheirão.

Por falar em colcha, a contribuição única de Vadinho para o enxoval constou de colorida colcha de retalhos. Obra coletiva das raparigas do castelo de Inácia, todas elas admiradoras do noivo, a começar pela nobre Inácia, mulata de cara picada de bexiga, a mais jovem casteleira da Bahia, nem por isso menos experiente. De quando em quando Vadinho aportava em seu leito, nele em xodó se demorando dias e semanas.

Não lhe cabia culpa de comparecer com tão pequena cota no total desses intermináveis gastos onde as economias de Flor, economias de anos de trabalho, se consumiam rápidas. Muito desejara Vadinho arcar com todas as despesas ou com a maior parte, para tanto muito esforço despendera. Nunca os amigos o haviam visto assim nervoso e persistente nas mesas de roleta, mas o 17 – seu número – andava escasso, era como se houvesse sido retirado da numeração. Tentou igualmente no grande e no pequeno, na ronda e no bacará; a sorte estava arredia contra ele, urucubaca das miúdas. Esforçou-se a ponto de já não ter a quem morder e esfaquear, a quem pedir empréstimo, obrigado a recorrer à própria noiva, afanando-lhe uma pelega de cem.

– Não é possível que o azar continue hoje, meu bem. Vou amanhecer aqui com uma carroça de dinheiro, tu compra meia Bahia sem esquecer uma dúzia de champanha para o dia do casório.

Não trouxe nem dinheiro nem champanha, estava mesmo azarado, até quando iria chorar a má sorte?

Assim, só houve champanha no casamento civil, realizado em casa dos tios. Thales Porto abriu uma garrafa e o juiz brindou com os nubentes e a família. Também o ato religioso foi simples e rápido, compareceram apenas algumas amigas íntimas de Flor e seu Antenor Lima, além de tia Lita e tio Porto (e dona Norma, é claro). Dona Magá Paternostro, a milionária, não pôde vir mas mandou pela manhã uma bateria de cozinha, esse sim, um presente útil. De parte de Vadinho, apenas o diretor do Departamento de Parques e Jardins da prefeitura – a quem o relapso funcionário, aproveitando o matrimônio como pretexto, esfaqueara, assim como aos colegas – , Mirandão e esposa, senhora magra e loira, avelhantada, e Chimbo. A presença do delegado auxiliar levou Thales Porto a comentar para dona Lita: nem tudo era balela na história tramada pelos capadócios para debicar de dona Rozilda. O parentesco de Vadinho com o importante Guimarães, isso pelo menos não era invenção.

Celebrou a cerimônia religiosa d. Clemente, capelão de Santa Teresa, graças a um pedido de dona Norma. Vadinho exibia sua vistosa elegância de cabaré, Flor toda em azul e em sorrisos, os olhos baixos. Dona Norma não conseguira convencê-la a ir de branco, com véu e grinalda, a boba não tivera coragem. As alianças foram as de Mirandão, emprestadas na hora. Na véspera, no Tabaris, haviam feito uma coleta e juntado o dinheiro necessário para Vadinho pagar as alianças já escolhidas na joalheria de Renot. Meia hora mais tarde Vadinho perdeu até o último tostão em casa de Três Duques. Ainda assim poderia tê-las obtido fiado, se as tivesse ido buscar. O joalheiro, se bem com fama de esperto, não conseguia resistir à lábia de Vadinho, por mais de uma vez lhe emprestara dinheiro. Tresnoitado, porém, o noivo dormira toda a manhã, saindo às carreiras para o Rio Vermelho no táxi do Cigano.

Quando já deixavam a igreja, surgiu o banqueiro Celestino empunhando um ramalhete de violetas. Foi apresentado a Flor – dona Flor, a partir de agora, como compete a uma senhora casada. Beijou-lhe a mão, desculpou-se pelo atraso, acabara de saber, nem tivera tempo de comprar uma lembrança. Passou discreto uma cédula a Vadinho, os convidados, a começar por Chimbo e d. Clemente, vinham pressurosos cumprimentar o mandachuva português.

Os recém-casados despediram-se no pátio do convento, apenas dona Norma os acompanhou até a nova residência em cuja fachada já fora suspensa a tabuleta da Escola de Culinária Sabor e Arte. Na porta de casa, dona Flor convidou a vizinha:

– Entre pra conversar um pouquinho…

Dona Norma riu, maliciosa:

– Só se eu fosse bronca… – apontou as nuvens escuras no mar. – Está chegando a noite, é hora de dormir…

Vadinho concordava:

– Falou pouco e disse tudo, vizinha. Aliás, para esse assunto eu tenho disposição a qualquer hora, com sol ou de noite, não faço diferença e não cobro extraordinário… – Abraçou dona Flor pela cintura, saiu andando com ela pelo corredor e, numa pressa, a ia desabotoando e despindo.

No quarto, derrubou-a em cima da colcha azul-hortênsia, arrancava-lhe combinação e calça. Dona Flor nua, estendida no leito, as primeiras sombras de crepúsculo caindo-lhe sobre os seios erguidos.

– T’esconjuro! – disse Vadinho – Essa coberta que tu arranjou, meu bem, parece mortalha de defunto. Tira isso da cama, minha peladinha, traz aquela de retalhos, em cima dela tu vai parecer ainda mais porreta. Essa, a gente guarda pra botar no prego, deve dar um dinheirão…

Sobre a colorida colcha de retalhos, muda em seu recato, coberta apenas com a meia-sombra de crepúsculo, dona Flor finalmente casada. Dona Flor com seu marido Vadinho; ela mesma o escolhera sem dar ouvidos aos conselhos das pessoas experientes, contra a expressa vontade de sua mãe, e, mesmo antes de casar-se, a ele se entregara sabedora de quem ele era. Podia estar a fazer uma loucura, mas, se não a fizesse, não tinha motivo para viver. Um fogo a consumia, vindo da boca de Vadinho, de seu hálito, e seus dedos queimavam-lhe a carne como chamas. Agora, casados, com todo o direito ele a despia, e a seu lado, no leito de ferro, a olhava a sorrir. Seu marido bonito, penugem doirada a cobrir-lhe braços epernas, mata de pêlos loiros no peito, a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo. Estendida junto a ele, dona Flor parecia uma negra, negra e pelada. Nua por dentro também, amargando de desejo, fremente, com pressa, muita pressa, como se Vadinho lhe despisse a alma. Ele dizia coisas, maluquices.

Vadiaram até não mais poder, quando ela então puxou a colcha, se cobriu, adormeceu. Vadinho sorria e lhe catava cafuné, Vadinho seu marido. Belo e másculo, terno e bom.

Pela madrugada dona Flor acordou, o despertador à cabeceira marcava duas horas da manhã. Vadinho não estava na cama, dona Flor pôs-se de pé, saiu a procurá-lo pela casa. Vadinho sumira, fora arriscar com certeza os cobres dados pelo banqueiro. Na própria noite de núpcias, era demais. Dona Flor chorou suas primeiras lágrimas de casada, rolando no colchão, roída de desgosto, rangendo os dentes de desejo.

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Sete anos decorreram entre aquelas primeiras lágrimas choradas por dona Flor na noite de núpcias e as da aflita manhã de Domingo Gordo quando Vadinho caiu sem vida em meio a um samba de roda, entre fantasias e máscaras. E, como bem disse dona Gisa – senhora de bem dizer as coisas, adrede e com exato a-propósito – ao ver o corpo do moço estendido nas pedras do largo Dois de Julho, já de todo e para sempre morto: a esposa chorara naqueles sete anos por seus insignificantes pecados e pelos do marido – pesada carga de culpas e malfeitos – e ainda sobravam lágrimas. Lágrimas de vergonha e sofrimento, de dor e humilhação.

Derramadas sobretudo à noite. Noites ermas da presença de Vadinho, noites insones de espera, longas de passar como se a aurora recuasse para os limites do inferno. Por vezes a chuva cantava seu acalanto nos telhados, o frio a pedir corpo de homem, quentura de um peito com mata de pêlos, abrigo em braços fortes. Dona Flor em vigília, impossível adormecer; o desejo de tê-lo a seu lado era uma ferida exposta. Estremecia em arrepios, num desconforto de tristeza, naquela cama cheia apenas de ânsia e de abandono.