Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 17)
Não restou a Chimbo outro caminho senão reunir as ofendidas hóspedes, dar o braço a Rita de Chimbo, e embarcar com elas num navio da Bahiana. Renunciou assim ao cargo, às honrarias, e à polpuda comissão do jogo do bicho. Órfão ficou Belmonte de sua capacidade administrativa e da lhaneza das beldades da capital. Da eficiente administração de Chimbo davam testemunho a restaurada ponte de desembarque, a ampliação do grupo escolar e os consertos no muro do cemitério; das raparigas, a fugidia visão continuou por muito tempo a perturbar o sono de Belmonte.
Recolheu-se Chimbo ao anonimato do rendoso lugar de serventuário da justiça, onde ninguém lhe vigiava os passos. Reintegrou-se na vida noturna, do Tabaris (onde Rita de Chimbo voltara a reinar) ao Pálace, do Abaixadinho à casa de Três Duques, do castelo de Carla ao de Helena Beija-Flor. Da festa da noite e do cargo polpudo e anódino – escrivão de casamentos, juramentado – retirava-o de quando em quando o pai senador para usá-lo em suas manobras políticas, entregando-lhe posições e honrarias por outros ambicionados, não por ele, Chimbo, desejoso apenas de viver livre, a la vontê.
Chimbo estimava Vadinho, não só pelo distante e espúrio parentesco, como também devido às qualidades do jovem companheiro de roletas e cabarés. Assim, ouvindo certa ocasião alguém tachar Vadinho de vagabundo, sem ofício nem meio de vida, arranjou-lhe modesto emprego de fiscal de jardins da prefeitura, pois “um Guimarães deve ter posição definida na sociedade”.
– Nenhum Guimarães é um vagabundo…
Contradições desse simpático Chimbo, tão pouco preso a convenções e protocolos e, ao mesmo tempo, com profundo sentimento de família, zeloso da poderosa clã dos Guimarães.
Pois, naquela tarde, Vadinho e Mirandão encontraram Chimbo em São Pedro, quando o delegado auxiliar dirigia-se à chefatura de polícia. Um Chimbo aporrinhado da vida, metido em roupa escura e quente, de cerimônia, roupa de enterro ou matrimônio – colarinho de ponta virada, plastrão, colete, polainas, bengala de castão de ouro – , um Chimbo a rigor naquele dia escaldante de fevereiro, o mormaço a asfixiar, canícula mortal, as bocas ávidas por uma cerveja bem gelada.
– Só uma bramota polar pode nos salvar a vida… – disse Vadinho, abraçando o parente e protetor.
Chimbo arrenegou da sorte, em plástica e forte língua, dando nomes, num azedume “Merda de vida mais escrota aquela, emprego mais filho-da-puta aquele, obrigado a acompanhar o governador a todos os cantos, a todas as cerimônias, a todas essas merdolências e porcarias…”. Não o viam assim fantasiado de comendador português? Naquela noite tinha de comparecer, por força do cargo, à instalação solene de um congresso científico – Congresso Nacional de Obstetrícia – , na faculdade de medicina, com discursos e teses, debates e pareceres sobre partos e abortos, paulificação monumental. Chimbo emborcava rápido seu copo de cerveja, tentando aplacar calor e raiva, seu pai com aquela eterna mania de utilizá-lo na política…
E ainda por cima – imaginassem eles a urucubaca! – o tal congresso decidia instalar-se logo na noite da festa do major Pergentino, o major Tiririca, do Rio Vermelho, certamente eles sabiam de quem se tratava. Fizera um favor ao militar, soltara um desordeiro a seu pedido, e agora o major não o largava, querendo a todo custo obsequiá-lo, preparando-lhe grossa homenagem. A festa de Tiririca, segundo diziam, era de arromba, valia a pena, nela comia-se e bebia-se à farta. E ele, Chimbo, convidado de honra, imaginem a pagodeira!
– Em vez disso vou ter é de ouvir médico falando em parto… Meu pai me arranja cada prebenda…
Como convencer o senador a deixá-lo em paz, em seu canto, se o velho era um sátrapa ante o qual até o governador tremia? Brilharam os olhos de Vadinho, sorriu Mirandão, Chimbo acabava de abrir-lhes as portas da glória e da casa do major.
8
À noite, diante da residência em festa, os dois embusteiros apostaram com outros valdevinos: penetrariam no baile e nele seriam recebidos como se fossem convidados de honra. Penetraram e foram recebidos com todas as honras, tratados a velas de libra, pois Vadinho fez-se reconhecer pelo major e por dona Aurora como sobrinho do impedido delegado auxiliar enquanto empossava Mirandão no inexistente cargo de secretário particular de Chimbo.
– Doutor Aírton Guimarães, meu tio, teve de acompanhar o governador ao congresso de obstetrícia. Mas, como fazia questão de não faltar ao seu convite, mandou-me a mim e ao seu secretário, doutor Miranda, para representá-lo. Eu sou o doutor Waldomiro Guimarães…
O major confessou-se comovido com a gentileza do delegado, a oferecer-lhe desculpas, a fazer-se representar. Lastimava não tê-lo na festa, seu desejo seria homenageá-lo, mas recebiam, ele e sua esposa, de braços abertos, o representante de seu estimado amigo. Estendia a mão para Vadinho quando Mirandão, em êxtase e desbragado, corrigiu e pôs todas as coisas em seus lugares:
– Perdoe-me, major, a intromissão: representante do doutor delegado auxiliar é a minha modesta pessoa, eu doutor José Rodrigues de Miranda, livre-docente da escola de agronomia, requisitado pelo doutor Aírton… O meu amigo doutor Waldomiro, se bem sobrinho do delegado, não o representa e, sim, ao senhor governador…
– Ao governador? – exclamou o major, embargado com tanta honra.
– Sim – encarrilhou Vadinho. – Quando o governador ouvira o delegado auxiliar pedir a seu secretário e a seu sobrinho que fossem à festa do major, lhe ordenara (pois servia no gabinete de sua excelência) abraçar “seu bom amigo Pergentino e cumprimentar sua digna esposa”.
O major e dona Aurora, empanzinados de vaidade, abriam passagem, faziam apresentações, mandavam encher os copos, preparar os pratos, tudo era pouco para Vadinho e Mirandão.
Lá fora, embasbacados, os colegas de maroteira não podiam crer nos próprios olhos. Que patifaria teriam inventado os dois cínicos para serem assim recebidos? Não havia memória de penetra algum ter conseguido atravessar os batentes da porta do major, para quem era uma questão de honra manter a festa nos limites estritos dos seus convidados, seus amigos, que lhe garantiam a decência e o renome. Jurando por seus gloriosos galões, gabava-se: “Penetra, em minha festa, só passando sobre meu cadáver!”. E os penetras mais exímios da cidade, capazes de penetrar – e tendo penetrado – em festas de todo fechadas e imponentes, guardadas pela polícia, até em festas no palácio do governo e na casa do dr. Clemente Mariani, festas ao lado das quais a do major era simples assustado, dancinha de pobre, forrobodó de bairro, arrasta-pé, esses penetras famosos, todos eles, fracassaram em suas tentativas, cada ano renovadas, de penetrar na festa do major. Nenhum alcançara transpor os defendidos umbrais.
Nenhum, é exagero. Édio Gantois, estudante astucioso, em comparsaria com outro não menos moleque, o já anteriormente referido Lev Língua de Prata, na ocasião ainda acadêmico, conseguiram os dois, certa feita, penetrar e por meia hora, mais ou menos, manter-se na festa para serem logo depois expulsos a safanões e sopapos, o musculoso Édio em luta corporal com os convidados, o galalau do Lev trocando pontapés com o major.
Como triunfaram e, logo após o triunfo, tão lamentavelmente fracassaram? Se bem seja outra história, vale a pena contá-la para assim ainda mais valorizar-se o feito de Vadinho e Mirandão. Por aquele tempo havia aportado à Bahia, com muito reclame nas gazetas, para dois únicos espetáculos no conservatório, um extravagante concertista a manejar instrumento ainda mais singular: um serrote, tão melodioso quanto o mais afinado piano. Tratava-se de um russo, de nome estrambótico, o “russo do serrote mágico”, como anunciavam os cartazes de propaganda e as notícias nos jornais. Édio possuía velho serrote de carpina, e Lev, filho de russo, o nome estrambótico. Doidos os dois por uma boa molecagem, embrulharam o serrote em papel pardo, engoliram umas cachaças para animar, apresentaram-se na porta do major como o russo do serrote e seu empresário.
O major Tiririca possuía um sexto sentido quando se tratava de penetras: percebia-os no ar, a distância. Bateu os olhos em Lev e Édio e uma voz interior deu-lhe o alarme. Mas já os convidados, ao anúncio da presença do “russo do serrote mágico”, saudavam entusiasmados a possibilidade de ouvi-lo tocar. Em silêncio, curtido de dúvidas, o major abriu a porta, permitindo a entrada aos dois malandrins. Ficou, porém, a vigiá-los. Encostaram eles o serrote atrás de um móvel, o major comprovou a avidez com que se dirigiam à sala de jantar, a pressa em comer e beber. Trocando um olhar com dona Aurora, a quem igualmente toda aquela encenação não parecia lá muito católica, exigiu então o major, apoiado pela totalidade dos convidados ansiosos, imediata demonstração musical. Primeiro o concerto, depois a pitança. Por mais tentasse Édio, com um conversê tapeativo, adiar o momento do desastre, não o conseguiu, não obteve prazo nem apelação.
Ao demais, por qualquer estranha metamorfose, Lev sentira-se de súbito inspirado, vivia seu papel de forma tão realista a ponto de considerar-se o verdadeiro russo dos concertos. Assim, sem mais se fazer rogar, tomou do velho serrote, entre palmas e bravos. Foi tão perfeito – curvada em ângulo sua magra e comprida anatomia, a cabeleira desfeita, os olhos no astral, um autêntico maestro – que a todos enganou, fazendo vacilar mesmo o major e dona Aurora, enquanto não feriu, com uma colher de café, o bojo do serrote. Mas apenas lhe aplicou o primeiro golpe e – como depois Édio contaria – todos os presentes, sem exceção, compreenderam tratar-se de uma farsa. Só Lev persistia, cada vez mais autêntico e possuído, a vibrar colheradas no serrote, sem que o major, esposa e convidados demonstrassem a menor simpatia por tanto empenho e arte.