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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 8)

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Em meio a tanta discussão, a elegia fez sua carreira, lida e decorada, dita nas mesas dos bares pela madrugada, quando a cachaça desatava os sentimentos mais nobres. Os declamadores mudavam-lhe adjetivos e verbos, por vezes baralhavam ou engoliam estrofes. Mas, correta ou deturpada, molhada de cachaça, caída no chão dos cabarés, lá ia ela fazendo o elogio de Vadinho, sua louvação.

Quem quer que a houvesse composto refletia um sentimento geral naquele submundo onde Vadinho se movimentara desde a adolescência e do qual terminou sendo uma espécie de símbolo. A elegia foi o ponto mais alto no desparrame de louvores ao moço jogador. Se lhe fosse dado ouvir tanta palavra de elogio e de saudade, Vadinho não acreditaria. Em vida jamais fora alvo de encômios e loas, muito ao contrário: viviam a lhe martelar os ouvidos com repreensões e conselhos, sermões a propósito de sua má vida e de seus maus sentimentos.

Aliás, a indulgência para com seus malfeitos, para com essa exibição pública de suas pretendidas qualidades, a transformarem-no em herói de poema e em figura quase lendária, durou pouco tempo. Uma semana após sua morte já as coisas começavam a ser repostas em seus lugares, a opinião das classes conservadoras, responsáveis pela moral e pela decência, passou a manifestar-se pela boca das comadres e das vizinhas, tentando sobrepor-se ao anárquico e dissolvente panegírico estabelecido pela subversiva ralé dos castelos e cassinos, na criminosa tentativa de solapar os costumes e o regime.

Criava-se assim novo e apaixonante problema, como se já não bastasse o da lavra dos versos. De referência a este último, provas foram prometidas da verdadeira identidade do autor, por fim agora revelada e para sempre inscrita no livro de ouro das letras pátrias.

Quando, anos depois da morte de Vadinho, o poeta Odorico recebeu seu exemplar das Elegias impuras – um dos três únicos oferecidos de graça pelo poeta – , magnífica edição de luxo, tiragem reduzida a cem volumes autografados, ilustrada com xilogravuras de Calasans Neto, voltou-se para Carlos Eduardo, estendendo-lhe o livro precioso.

Estavam os dois amigos sentados na mesma sala de redação na qual, num dia distante, juntos haviam lido e discutido a elegia. Apenas agora eram senhores gordos e respeitáveis – e ricos, muito ricos, proprietários de coleções e de imóveis.

Odorico recordou:

– Eu não te disse naquela ocasião? Era dele. – E concluiu com o mesmo sorriso e com as mesmas palavras de outrora: – Velho sem-ver- gonha…

Também Carlos Eduardo riu seu riso cordial, de homem realizado e tranqüilo, e admirou a edição primorosa. Na capa, em letras cavadas na madeira, o nome do poeta: Godofredo Filho. Devagar, foi passando as páginas, a interrogar-se (com certa inveja): “Que ruas e ladeiras esconsas, que obscuras sendas de crepúsculo, que negras olorosas grutas, haviam juntos descoberto e amado o poeta ilustre e o pobre vagabundo, a ponto de entre eles desabrochar a rara flor da amizade?” Devagar, a refletir nesses enigmas, Carlos Eduardo tocava o papel como se acariciasse suave epiderme de mulher, quem sabe pele negra, noturno veludo? A quarta elegia, das cinco a comporem o volume, é dedicada à morte de Vadinho, “a ficha azul esquecida no tapete”.

Resolveu-se assim um problema, como prometido fora. Outro, porém, surge e se impõe, e quem sabe será possível encontrar-lhe solução? À vossa perspicácia fica ele entregue, esse mistério de Vadinho.

Quem era Vadinho? Qual sua verdadeira fisionomia? Quais suas exatas proporções? Era banhada de sol ou coberta de sombra sua face de homem? Quem era ele, o jogral da elegia, o porreta da frase de Paranaguá Ventura, ou o desprezível malandro, o mordedor incorrigível, o mau marido na voz da vizinhança, das amizades de dona Flor? Quem melhor o conhecera e melhor agora o definia: as piedosas freqüentadoras da missa das seis na igreja de Santa Teresa ou os irrecuperáveis habitués do Tabaris, “a bola girando na roleta, o baralho e os dados, a última parada”?

Capítulo II

Do tempo inicial da viuvez, tempo do nojo, do luto fechado, com as memórias de ambições e enganos, de namoro e casamento, da vida matrimonial de Vadinho e dona Flor, com fichas e dados e a dura espera agora sem esperança

(e a incômoda precença de dona Rozilda) (com Edgard Cocô ao violino, Caymmi ao violão e o dr. Walter da Silveira com sua flauta encantada)

Escola de culinária sabor e arte Moqueca de siri-mole

(receita de dona Flor)

Aula teórica

Ingredientes (para oito pessoas): uma xícara de leite de coco, puro, sem água; uma xícara de azeite de dendê, um quilo de siri-mole. Para o molho: três dentes de alho; sal ao gosto; o suco de um limão, coentro, salsa, cebolinha verde; duas cebolas; meia xícara de azeite doce; um pimentão; meio quilo de tomates. Para depois: quatro tomates; uma cebola; um pimentão.

Aula prática

Ralem duas cebolas, amassem o alho no pilão; cebola e alho não empestam, não, senhoras, são frutos da terra, perfumados. Piquem o coentro bem picado, a salsa, alguns tomates, a cebolinha e meio pimentão. Misturem tudo em azeite doce e à parte ponham esse molho de aromas suculento.

(Essas tolas acham a cebola fedorenta, que sabem elas dos odores puros? Vadinho gostava de comer cebola crua e seu beijo ardia.)

Lavem os siris inteiros em água de limão, lavem bastante, mais um pouco ainda, para tirar o sujo sem lhes tirar porém a maresia. E agora a temperá-los: um a um no molho mergulhando, depois na frigideira colocando um a um, os siris com seu tempero. Espalhem o resto do molho por cima dos siris bem devagar que esse prato é muito delicado.

(Ai, era o prato preferido do Vadinho!)

Tomem de quatro tomates escolhidos, um pimentão, uma cebola, tudo por cima e em rodelas coloquem para dar um toque de beleza. No abafado por duas horas deixem a tomar gosto. Levem depois a frigideira ao fogo.

(Ia ele mesmo comprar o siri-mole, possuía freguês antigo, no mercado…)

Quando estiver quase cozido e só então juntem o leite de coco e no finzinho o azeite de dendê, pouco antes de tirar do fogo.

(Ia provar o molho, a todo instante, gosto mais apurado ninguém tinha.)

Aí está esse prato fino, requintado, da melhor cozinha, quem o fizer pode gabar-se com razão de ser cozinheira de mão-cheia. Mas, se não tiver competência, é melhor não se meter, nem todo mundo nasce artista do fogão.

(Era o prato predileto de Vadinho, nunca mais em minha mesa o servirei. Seus dentes mordiam o siri-mole, seus lábios amarelos do dendê. Ai, nunca mais seus lábios, sua língua, nunca mais sua ardida boca de cebola crua!)

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Ora na missa de sétimo dia, oficiada por d. Clemente Nigra na igreja de Santa Teresa, envolta a nave esplêndida numa luz matinal azulada e transparente, chegada do mar defronte, como se o templo fora um navio prestes a largar – a simpatia e a solidariedade expressas em comentários sussurrados, dirigiam-se, a dona Flor, ajoelhada na primeira fila ante o altar, toda em negro, mantilha de rendas emprestada por dona Norma escondendo-lhe os cabelos e as lágrimas, um terço entre os dedos. Mas os cochichos não a lastimavam por haver perdido o marido e, sim, por tê-lo possuído. Dobrada no genuflexório, nada ouvia dona Flor, como se ninguém mais estivesse no santuário, apenas ela, o padre e a ausência de Vadinho.

Um rumor de beatas, de velhas ratas de sacristia, de rançosas inimigas da graça e do riso, se elevava junto com o incenso, num murmúrio ácido:

– Não valia nem um vintém de reza, o renegado.

– Se ela não fosse uma santa, em vez de missa dava era uma festa. Com dança e tudo…

– Para ela foi uma carta de alforria…

No altar, celebrando pela alma de Vadinho, d. Clemente, macerado de vigílias sobre livros antigos, sentia na atmosfera mágica da manhã apenas despertada certas perturbações, auras maléficas como se um demônio qualquer, Lúcifer ou Exu, mais provavelmente Exu, andasse solto pela nave. Por que não deixavam Vadinho em paz, não lhe permitiam descansar? Bem o conhecera d. Clemente: Vadinho gostava de vir conversar no pátio do convento, sentava-se sobre a muralha, contando histórias nem sempre as mais condizentes com aquelas venerandas paredes, mas ouvidas com atenção pelo frade, curioso e solidário com toda a ex- periência humana.

Havia no corredor, entre a nave e a sacristia, uma espécie de altar, e nele um anjo talhado em madeira, escultura anônima e popular talvez do século XVII, e era como se o artista houvesse tomado Vadinho de modelo; a mesma fisionomia inocente e desavergonhada, a mesma insolência, idêntica ternura. Estava ele ajoelhado ante a imagem, bem mais recente e barroca, de uma santa Clara, e para ela estendia as mãos. Certa ocasião d. Clemente levara Vadinho a ver o altar e o anjo, queria saber se o boêmio dar-se-ia conta da parecença. Vadinho pôs-se a rir apenas enxergou as imagens.

– Por que ris assim? – perguntou-lhe o frade.

– Que Deus me perdoe, padre… Mas não parece que o anjo está fretando a santa?

– Está o quê? Que termos são esses, Vadinho?

– Desculpe, dom Clemente, mas é que esse anjo tem uma cara manjada de gigolô… Nem parece anjo… Espie o olho dele… olho de frete…