Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 7)
– Se não fosse anônimo… – considerou outro poeta, Carlos Eduardo.
Esse Carlos Eduardo, moço tira do a bonito, entendido em antigüidades, era sócio do Tavares num negócio, um tanto escuso, de santos antigos. Os subliteratos mais frustrados e os gênios juvenis mais veementes, aqueles sem nenhuma esperança de estampar seus nomes no suplemento dominical de Odorico, acusavam-no e a Carlos Eduardo de receptadores de velhas imagens de santos, afanadas nas igrejas por um grupo de gatunos especializados, sob a chefia de um tipo de reputação duvidosa, um cochichado Mário Cravo, aliás amigo e companheiro de Vadinho. Magro e bigodudo, vivia o astucioso Cravo às voltas com peças de automóveis, chapas de ferro, máquinas avariadas, a entortar e a remendar toda aquela tralha, atribuindo valor artístico ao resultado, sob os aplausos dos dois poetas e de outros entendidos, unânimes em rotularem aquele ferro velho de escultura moderna e em apontarem o biltre como revelação de artista notável e revolucionário. Eis outro problema cuja discussão não cabe nessas páginas, o do valor real de mestre Cravo, não vamos aqui analisar-lhe a obra. Adiantemos apenas, como matéria de informação, o fato de ter a crítica posteriormente consagrado seu trabalho, objeto, inclusive, de estudos de foliculários estrangeiros. Naquele tempo, no entanto, não era ele ainda artista conceituado, apenas começava, e se já possuía certa notoriedade, devia-a sobretudo à sua discutível atuação nas sacristias e altares.
O próprio Vadinho, segundo consta, participara, em ocasião de extrema penúria, de sigilosa peregrinação noturna a vetusta igreja do Recôncavo, romaria organizada pelo herético Mário Cravo. O saque da igreja deu o que falar, pois uma das peças surrupiadas, um são Benedito, era atribuída a frei Agostinho da Piedade, e os frades botaram a boca no mundo. Hoje a imagem valiosa encontra-se num museu do sul, a acreditar-se nos maldizentes subliteratos, por obra e graça dos dois então magros sócios de musa lírica e devoto comércio.
Naquela manhã, antes do almoço, conversavam na redação, falando de santos e de quadros, quando Carlos Eduardo tirou do bolso cópia da elegia e a deu a ler ao poeta Odorico.
Lastimando não poder publicá-la – “não por causa do anonimato, meteríamos um pseudônimo qualquer…”, mas por causa dos palavrões – Tavares repetiu: “Uma pena…”, e releu em voz alta mais um verso:
Perguntou ao amigo:
– Descobriste logo o autor, não?
– Tu pensas que seja dele? Pareceu-me, porém…
– Está na cara… Ouve: “Um momento de silêncio em todas as roletas, bandeiras a meio pau nos mastros dos castelos, bundas em desespero, a soluçar”.
– É capaz…
– É capaz, não. É, com certeza. – Riu: – Velho sem-vergonha…
Aquela certeza não a possuíam os meios literários. A elegia foi atribuída a diversos poetas, vates conhecidos ou jovens estreantes. Deram-na como de Sosígenes Costa, de Carvalho Filho, de Alves Ribeiro, de Hélio Simões, de Eurico Alves. Muitos indicaram Robato como o mais provável autor. Não a declamava ele, entusiasmado, rolando a voz rica de modulações?
Não podiam entender como Robato recitaria versos de outro, gesto pouco habitual naqueles meios; esqueciam-se da natureza generosa do sonetista, de sua capacidade de admirar e aplaudir obra alheia.
Pode-se inclusive marcar o início do sucesso da elegia e da polêmica por ela suscitada a partir da alegre noite no castelo de Carla, a “gorda Carla”, competente profissional aportada da Itália, cuja cultura extralimitava do métier (no qual, aliás, “excelia” segundo Nestor Duarte, cidadão de renomada inteligência e viajado, um conhecedor), lida em D’Annunzio, doida por umas rimas. “Romântica como uma vaca”, assim a classificava o bigodudo Cravo, com quem ela andara metida uns tempos. Carla não podia passar sem uma paixão dramática e navegava de boêmio em boêmio, suspirando e gemendo, dilacerada de ciúmes, com seus tremendos olhos azuis, os seios de prima-dona, as coxas espantosas. Vadinho, igualmente, lhe merecera as boas graças e uns trocados, se bem ela preferisse os poetas, versejando ela própria na “doce língua de Dante com muito estro e inspiração”, como adulava Robato.
Todas as quintas-feiras à noite, Carla reunia uma espécie de salão literário em seus amplos aposentos. Compareciam poetas e artistas, boêmios, algumas figuras gradas, como o desembargador Airosa, e as raparigas do castelo prontas a aplaudir os versos e a rir das anedotas. Serviam bebidas e docinhos.
Carla presidia a soirée, reclinada num divã repleto de coxins e almofadas, vestindo túnica grega ou pedrarias, ateniense de figurino ou egípcia de Hollywood, recém-saída de uma ópera. Os poetas declamavam, trocavam frases de espírito, epigramas, cruzavam-se trocadilhos, o desembargador sentenciava um axioma preparado durante a semana, num duro labor. O momento culminante da tertúlia acontecia quando a dona da casa, a grande Carla, alçava-se por entre os travesseiros, toda aquela tonelada de carne branca recoberta de pedraria falsa, e, num fio de voz, extravagante em mulher tão monumental, declamava, em açucarados versos italianos, seu amor pelo último eleito. Enquanto isto, o artista Cravo e outros materialistas grosseiros aproveitavam-se da semi-obscuridade reinante na sala – a luz velada para assim, na meia-sombra, melhor ouvir-se e sentir-se a poesia – e, sem respeitar ambiente de tão alta espiritualidade, de tão excelsos sentimentos, bolinavam descarados as raparigas, tratando de obter-lhes favores gratuitos, lesando a caixa do castelo, uns calhordas.
Os saraus terminavam sempre decaindo da poesia para a anedota pornográfica, no fim da noite. Brilhavam então Vadinho, Giovanni, Mirandão, Carlinhos Mascarenhas, e, sobretudo, Lev, arquiteto em começo de carreira, filho de imigrantes, um galalau comprido como uma girafa, dono de inesgotável repertório, bom narrador. Carregava um sobrenome russo impronunciável, as raparigas haviam-no apelidado de Lev Língua de Prata, devido talvez às anedotas. Talvez.
Num desses “elegantes encontros da inteligência e da sensibilidade”, declamou Robato, com sua voz trêmula, a elegia à morte de Vadinho, introduzindo-a com algumas palavras comovidas sobre o desaparecido, amigo de todos os freqüentadores daquele “delicioso antro do amor e da poesia”. Referiu-se de passagem ao fato de ter o autor preferido “as névoas do anonimato ao sol da publicidade e da glória”. Ele, Robato, recebera cópia do poema das mãos de um oficial da Polícia Militar, capitão Crisóstomo, também fraterno amigo de Vadinho. Não soubera, no entanto, o militar dar-lhe informação precisa sobre a identidade do poeta.
Muitos atribuíram os versos ao próprio Robato, mas, ante sua recusa sistemática em aceitá-los, andaram apontando como autor quanto poeta versejava na cidade, especialmente aqueles de condição noturna e de boêmia conhecida. Houve, porém, quem jamais acreditasse nas negativas de Robato, levando-as à conta de modéstia, e persistiram em seu nome. Ainda hoje há quem pense serem de sua lavra as estrofes da elegia.
O debate azedou-se a ponto de, em certa ocasião, romper os limites da literatura e da civilidade e descambar num conflito a bofetões, quando o poeta Clóvis Amorim, língua viperina solta numa boca de epigramas, a mamar permanente e fedorento charuto do Mercado Modelo, negou ao bardo Hermes Clímaco qualquer possibilidade de ser autor dos debatidos versos, faltando-lhe para tanto gênio e gramática.
– De Clímaco? Não diga besteira… Aquele, com muito esforço, obra uma quadrinha em sete sílabas. Um poeta endefluxado…
Por cúmulo do azar, o poeta Clímaco surgia na porta do botequim, com seu eterno traje negro, a capa de borracha e o guarda-chuva, também eternos. Levantou o guarda-chuva e arremeteu, em cólera:
– Endefluxado é a puta que o pariu…
Atracaram-se, entre xingos e sopapos, com vantagens evidentes para o Amorim, melhor versejador e atleta mais robusto.
Curioso também e digno de relato o sucedido com um fulano, autor de dois magros cadernos de versos, a quem algumas pessoas menos avisadas conferiram a autoria do poema. Primeiro ele a negou com firmeza, depois, como perseverassem, foi menos pertinaz em suas negativas e, por fim, reagia de maneira tão confusa e tímida que a negativa parecia acanhada afirmação.
“É dele, não há dúvida”, diziam, ao vê-lo esfregar as mãos, baixando os olhos, a sorrir num murmúrio:
– Que parecem versos meus, isso parecem. Mas, não são…
Negou sempre, mas, ao mesmo tempo, não admitiu jamais atribuíssem a outrem as discutidas estrofes. Se o faziam, desdobrava-se a provar a impossibilidade de tal hipótese. E se algum obstinado persistisse a argumentar, resmungava definitivo e misterioso:
– Ora, quer dizer a mim?… Tenho razões para saber…
E, quando a ouvia declamar, acompanhava atentamente o recitativo, corrigindo-o se alguma palavra era trocada, ciumento do poema, zeloso como de obra sua. Só mais tarde, com a revelação do nome do verdadeiro autor, veio ele a despir-se da glória indevida. Passou então, e imediatamente, a dizer horrores da elegia, negando-lhe qualquer mérito ou beleza – “Poesia prostibular e estercorária”.