Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 6)
Umas descaradas, quase todas elas. Muita amizade e adulação com dona Flor mas de olhos interessados no patife. Lá estava ele com seu ar trêfego e altivo, escornado numa cadeira ou estendido num degrau da porta da cozinha, a la godaça, a medi-las de cima a baixo, demorando-se atrevido nas pernas, nos joelhos, no caminho das coxas, na altura dos seios. Elas baixavam os olhos, o não-sei-que-diga não baixava os dele.
Dona Flor preparava os pratos salgados e os bolos, tortas e doces, nas aulas práticas. Vadinho emitia conceitos, arrotava chalaças, comia os quitutes, circulando em torno delas, puxando conversa com as mais bonitas, arriscando a mão salafrária se alguma mais árdega se aproximava.
Dona Flor ficava nervosa, agoniada, a ponto de errar as medidas da manteiga derretida no manuê difícil, rogando a Deus fosse Vadinho para a rua, para a malandragem, para a desgraça do jogo, mas deixasse as alunas em paz.
Agora, no velório, cercavam dona Flor e a confortavam, mas uma delas, a pequena Ieda, com sua cara de gata arisca, mal podia conter as lágrimas e não desviava os olhos da face do morto. Dona Flor logo percebeu o exagero do sentimento, sentiu um baque no peito. Teria se passado alguma coisa entre eles? Nunca notara nada de suspeito, mas quem podia garantir não se encontrassem os dois fora da escola, fossem terminar num castelo qualquer? Vadinho, desde o caso com a sirigaita da Noêmia aparentemente deixara de pastorear as alunas. Mas era homem de muita manha, bem podia esperar a desbriada na esquina, botar-lhe conversa, e que mulher resistia à lábia de Vadinho? Dona Flor acompanhava o olhar de Ieda, descobria o beicinho trêmulo da moça. Não lhe restava dúvidas, ah!, Vadinho mais sem jeito…
De todos os desgostos que lhe dera o marido, nenhum comparável ao caso com a donzela Noêmia, putinha de família respeitável, e noiva, um horror! Mas dona Flor não queria recordar aquela tristeza antiga na noite da sentinela, quando, pela derradeira vez, fitava a face de Vadinho. Tudo aquilo passara, estava distante, a fulana casara, fora embora com o noivo, um zinho com fumaças de jornalista, talento precoce pois tão jovem e já tão corno, de nome Alberto. Ao demais, com o casamento a pedante enfeara de vez, virara um bucho sem medida.
Quando, naquela ocasião, tudo terminara bem quase por milagre, Vadinho lhe dissera no calor do leito e da reconciliação: “Mulher permanente pra mim só mesmo tu sou capaz de suportar. O resto é tudo xixica para passar o tempo”. Ali no velório, cercada de tanta gente e de tanta afeição, dona Flor não deseja relembrar aquela esquecida história, tampouco vigiar gestos e olhares da pequena Ieda com seu choro malcontido, seu segredo debulhado em lágrimas. Com Vadinho morto nada mais importava, para que esclarecer, tirar a limpo, acusar e lastimar-se? Ele morrera, tinha pago tudo e até com juros pois tão jovem se finara. Dona Flor sentiu-se em paz com o marido, não tinha contas a acertar com ele.
Curvou a cabeça, deixou de controlar os movimentos da moça. Via apenas, ao baixar os olhos, Vadinho tocando-lhe o corpo com a mão, no leito de ferro, dizendo-lhe ao ouvido: “Tudo xixica para passar o tempo, permanente só tu, Flor, minha flor de manjericão, outra nenhuma”. Que diabo era xixica? – quis de repente saber dona Flor. Uma pena, nunca lhe havia perguntado, mas coisa boa não seria. Sorriu. Tudo xixica, permanente só ela, Flor, flor de Vadinho em sua mão desfolhada.
5
No outro dia, às dez da manhã, saiu o enterro, com grande acompanhamento. Não havia bloco nem rancho naquela manhã de segunda-feira de Carnaval capaz de comparar-se em importância e animação com o funeral de Vadinho. Nem de longe.
– Espie… pelo menos espie pela janela… – disse dona Norma a Zé Sampaio, desistindo de arrastá-lo ao cemitério – …espie e veja o que é o enterro de um homem que sabia cultivar suas relações, não era um bicho-do-mato como você… Era um capadócio, um jogador, um viciado, sem eira nem beira, e, entretanto, veja… Quanta gente e quanta gente boa… E isso num dia de Carnaval… Você, seu Sampaio, quando morrer não vai ter nem quem segure a alça do caixão…
Zé Sampaio não respondeu nem olhou pela janela. Metido num pijama velho, na cama, com os jornais da véspera, apenas gemeu um fraco gemido e meteu o dedo grande na boca. Era um doente imaginário, tinha um medo desatinado da morte, horror de visitas a hospitais, de sentinelas e enterros, e naquele momento encontrava-se à beira do enfarte. Assim vinha desde a véspera, desde que a esposa lhe informara ter o coração de Vadinho estourado de repente. Passara uma noite de cão a esperar a explosão das coronárias, rolando na cama em suores frios, a mão comprimindo o peito esquerdo.
Dona Norma, colocando sobre a cabeça de formosos cabelos castanhos um xale negro, apropriado para a ocasião, completou, impiedosa:
– Eu, se não tiver pelo menos quinhentas pessoas em meu enterro, vou me considerar uma fracassada na vida. De quinhentas para cima…
Partindo desse princípio, Vadinho devia considerar-se plenamente vitorioso e realizado. Pois meia Bahia viera a seu funeral e até o negro Paranaguá Ventura abandonara seu soturno covil e ali estava, o terno branco brilhando de espermacete, gravata negra e negro laço na manga esquerda, rosas vermelhas na mão. Preparava-se para segurar uma alça do caixão e, ao dar os pêsames a dona Flor, resumiu o pensar de todos na mais breve e bela oração fúnebre de Vadinho:
– Era um porreta!
INTERVALO. Breve notícia (aparentemente desnecessária) da polêmica travada em torno da autoria de anônimo poema a circular, de botequim em botequim, no qual o poeta chorava a morte de vadinho – revelando-se aqui e por fim a verdadeira identidade do ignoto barbo, à base de provas concretas
Não, não se transformaria certamente, com o passar do tempo, em indecifrável mistério das letras, em mais um obscuro enigma da cultura universal, desafiando, séculos depois, universidades e sábios, estudiosos e biógrafos, filósofos e críticos, e convertendo-se em matéria de pesquisas, comunicações, teses a ocupar bolsistas, institutos, catedráticos, historiadores e velhacos variados em busca de existência fácil e regalada. Não seria um novo caso Shakespeare, não passaria de dúvida tão insignificante quanto o pequeno acontecimento a servir-lhe de tema e inspiração: a morte de Vadinho.
Nos meios literários de Salvador, no entanto, elevou-se a interrogação e em torno dela nasceu a polêmica: qual dos poetas da cidade compusera – e fizera circular – a “Elegia à definitiva morte de Waldomiro dos Santos Guimarães, Vadinho para as putas e os amigos”? Cresceu rápida a discussão, não tardou a azedar-se, a ser motivo de inimizades, retaliações, epigramas, e até uns tapas. Circunscritos, porém, debates e rancores, dúvidas e certezas, afirmações e negações, xingamentos e tabefes às mesas dos bares, onde, em torno de geladas bramotas, reuniam-se noite adentro os incompreendidos talentos jovens (a demolirem e a arrasarem toda a literatura e toda a arte anteriores ao feliz aparecimento dessa nova e definitiva geração) e os subliteratos tenazes, empedernidos, resistindo a todas as inovações, com seus trocadilhos, seus epigramas, suas frases retumbantes; empunhando uns e outros – gênios imberbes e beletristas de barba por fazer – , com a mesma violenta disposição de leitura, suas últimas produções em prosa e verso, cada uma delas e todas elas destinadas a revolucionar as letras brasileiras, se Deus quiser.
Nem por se limitar ao âmbito do estado da Bahia (do estado e não somente da capital, pois repercutiu o debate em municípios da região cacaueira. Nos anais da Academia de Letras de Ilhéus encontram-se seguras referências a um sarau dedicado ao estudo do problema); nem por não ter obtido espaço nos suplementos e revistas, desvanecendo-se em discussões orais; nem por tudo isso o curioso e por vezes ácido debate pode deixar de merecer atenção e interesse, quando se narra a história de dona Flor e de seus dois maridos, na qual Vadinho é personagem importante, herói situado em primeiro plano.
Herói? Ou será ele o vilão, o bandido responsável pelos sofrimentos da mocinha, no caso dona Flor, esposa dedicada e fiel? Esse já é outro problema, desligado da questão literária a preocupar poetas e prosadores; talvez até mais difícil e grave, e ficará a vosso cargo dar-lhe resposta, se obstinada paciência vos conduzir até o fim destas modestas páginas.
Da elegia, sim, não havia dúvidas, era Vadinho herói indiscutível, “jamais outro virá tão íntimo das estrelas, dos dados e das putas, mágico jogral”, badalavam os versos, numa louvação sem tamanho. E se o poema – a exemplo da polêmica – não obteve espaço nas folhas literárias, não foi por falta de merecimento. Um certo Odorico Tavares, poeta federal pairando acima dos disse-que-disse dos vates estaduais – ademais todos eles comendo em sua mão, de rédea curta, pois o déspota controlava dois jornais e uma estação de rádio – , ao ler cópia datilografada da elegia, lastimou:
– Pena não se poder publicar.