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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 5)

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Prova ainda mais impressionante do prestígio de Vadinho foi ter Zé Sampaio comparecido à sentinela. Por breves minutos, é verdade, mas era aquele o primeiro velório do comerciante nos últimos dez anos. Tinha horror a todo e qualquer compromisso social, sobretudo a cerimônias fúnebres, velórios, cemitérios, missas de sétimo dia, o que levava dona Norma a gritar-lhe quando ele se recusava a acompanhá-la a um de seus vários enterros semanais:

– Quando você morrer, Sampaio, não vai ter gente nem para carregar o caixão… Vai ser uma vergonha.

Zé Sampaio punha-lhe um olhar torvo, não respondia, o dedo grande da mão direita metido entre os dentes, num gesto seu, habitual, de resignação ante o perpétuo alvoroço da esposa.

Compareceram os importantes, como Celestino e Zé Sampaio, como o parente Chimbo, o arquiteto Chaves, o dr. Barreiros, proeminente figura da justiça, e o poeta Godofredo Filho. Chegaram incorporados os colegas da repartição, a todos eles Vadinho devia pequenas quantias. A comandá-los, oratório e solene, veio o ilustre diretor dos Parques e Jardins, trajando terno preto. Vieram os vizinhos, os ricos e os pobres, os remediados também. E vieram todos quantos na Bahia naquele então freqüentavam os cassinos de jogo, os cabarés, as bancas de bicho, as alegres casas de mulheres: Mirandão, Curvelo, Pé de Jegue, Waldomiro Lins e seu jovem irmão Wilson, Anacreon, Cardoso Peroba, Arigof, Pierre Verger com seu perfil de pássaro e seus mistérios de Ifá. Alguns, como o dr. Giovanni Guimarães, médico e jornalista, pertenciam aos dois grupos, familiares dos grandes e dos pequenos, dos respeitáveis e dos irresponsáveis.

Os importantes recordaram Vadinho entre risos, suas histórias cheias de picardia e de malícia, seus golpes divertidos, suas trampolinagens atrevidas, suas atrapalhações e confusões, e seu bom coração, sua gentileza, sua graça inconseqüente. Também os vizinhos assim o relembravam: boêmio sem horário e sem limites. Uns e outros ampliavam a realidade, inventavam detalhes, atribuíam-lhe casos e aventuras, a lenda de Vadinho começava a nascer ali junto de seu corpo, quase na hora mesmo de sua morte. O citado dr. Giovanni Guimarães imaginava pedaços inteiros de histórias, floreava os acontecidos, era chegado a uma mentirazinha bem apoiada em datas e locais precisos:

– Um dia, há quatro anos passados, no mês de março, encontrei Vadinho na casa de Três Duques, jogando no 17. Estava vestido com uma capa de borracha, por baixo não tinha roupa nenhuma, nuzinho. Botara tudo no prego, empenhara calça e paletó, camisa e cueca, para poder jogar. Ramiro, aquele espanhol canguinha do Setenta e Sete, só queria aceitar a calça e o paletó, que diabo iria fazer com uma camisa de colarinho puído, uma velha cueca, uma gravata vagabunda? Mas Vadinho lhe impingiu até o par de meias, guardou apenas os sapatos. E tinha tanto mel na língua que conseguiu que Ramiro, aquela fera que vocês conhecem, lhe emprestasse uma capa de borracha quase nova pois não ia sair nu, rua afora, em direção à casa de Três Duques…

– E ganhou? – queria saber o jovem Arthur, filho de seu Sampaio e de dona Norma, ginasiano e admirador de Vadinho, a ouvir boquiaberto o relato do jornalista.

Dr. Giovanni olhou o moço, fez uma pausa, sorriu com o rosto todo:

– Qual o quê… Pela madrugada perdeu a capa do espanhol no 17 e foi trazido para casa embrulhado nas folhas de um jornal… – o sorriso transformava-se num riso sonoro, contagioso, ninguém igual a dr. Giovanni para animar uma sentinela.

E como naquele momento entrasse na sala o inumerável Robato, o jornalista acrescentou a prova final, as palavras ainda molhadas do riso:

– Está aí quem não me deixa mentir… Você ainda se lembra, Robato, daquela noite em que Vadinho foi nu para casa, enrolado num jornal?

Robato não era homem de vacilar: circundou o olhar em torno, examinando o grupo acomodado num canto da sala de jantar; temeroso de ouvidos femininos e indiscretos, não fossem chegar à desolada viúva tais recordações; mas vacilar não vacilou, não era de recusar desafios, tinha o repente fácil, pegou a deixa no ar:

– Nu, enrolado num jornal? Ora, se me recordo… – pigarreou para aclarar a voz barroca e desatar a imaginação. – Pois se a gazeta era minha… Foi no castelo de Eunice Um Dente Só; além de nós dois e de Vadinho, me lembro de Carlinhos Mascarenhas, de Jenner e de Viriato Tanajura… A gente tinha bebido a noite inteira, um pifa sem medida…

Era esse Robato um notívago da força de Vadinho, de outra estirpe, porém. Não o tentava o jogo nem fugia ao trabalho; ao contrário, homem de sete instrumentos, tinha fama de ativo e competente. Fabricava dentaduras, consertava rádios e vitrolas, tirava retratos para carteiras, bulia em tudo quanto era máquina, cheio de hábil curiosidade. Sua roleta era a poesia, bem metrificada e bem rimada (rimas ricas), seu cassino os bares e cabarés onde atravessava as madrugadas na amena companhia de outros tenazes literatos e de raparigas simpatizantes das musas e de seus cultores, a declamar odes, cantos libertários, poemas líricos e lúbricos, sonetos de amor. Tudo de sua autoria. Ele mesmo proclamara-se “rei mundial do soneto”, batera todos os recordes conhecidos, autor até aquela data de vinte mil oitocentos e sessenta e cinco sonetos, entre decassílabos e alexandrinos, de arte-menor e de arte-maior, e anacíclicos. Um princípio de calva ameaçava-lhe a cabeleira morena de vate mas não lhe diminuía a simpatia radiosa.

Tomou da palavra e novamente Vadinho atravessava a sala envolto em jornais, não mais iria esquecê-lo o jovem Arthur, dele se recordaria para sempre: embrulhado nas folhas de A Tarde, Vadinho, herói de um mundo proibido e fascinante.

Sucediam-se as histórias enquanto dona Norma, dona Gisa, a casadoira Regina, outras moças e senhoras, serviam cafezinho com bolos, cálices de cachaça e de licor de frutas. A vizinhança providenciara para que nada faltasse ao velório.

Os importantes, sentados na sala de jantar, no corredor, na porta da rua, relembravam Vadinho entre anedotas e risos. Os outros, os parceiros de jogo e de malandragem, recordavam-no em silêncio, sérios e comovidos, demoravam na sala de visitas, de pé, ao lado do corpo. Ao entrar, paravam ante dona Flor, apertavam-lhe a mão, encabulados, como se fossem responsáveis pelos malfeitos de Vadinho. Muitos deles não a conheciam sequer, nunca a tinham visto, mas de tanto ouvirem falar nela, sabiam como por vezes Vadinho tomava-lhe até o dinheiro das despesas para jogá-lo no Pálace, no Tabaris, no Abaixadinho, no antro de Zezé Meningite, no de Abílio Moqueca, nas múltiplas roletas ilegais da cidade, inclusive na mal-afamada casa de tavolagem do negro Paranaguá Ventura, onde por princípio só o banqueiro devia ganhar.

Figura torva e amedrontadora essa do negro Paranaguá Ventura com suas incontáveis entradas na polícia, um rol de acusações jamais completamente provadas, sua fama de ladrão, estuprador e assassino. Por crime de morte respondera a júri e fora absolvido mais por falta de coragem dos jurados do que por falta de provas. Diziam-no autor de dois outros assassinatos, sem falar na mulher esfaqueada na ladeira de São Miguel, em pleno meio-dia, pois essa escapara por um triz. O covil de Paranaguá, freqüentavam-no apenas capadócios profissionais de baralhos marcados, gatunos, batedores de carteira, vigaristas, gente sem nada mais a perder. Pois bem: até lá chegava Vadinho com seu magro dinheiro e seu riso alegre, e talvez fosse ele um dos poucos eleitos a poder gabar-se de haver ganho alguma vez nos dados viciados de Paranaguá. Segundo constava, de quando em quando, o negro permitia a um parceiro de sua afeição acertar uma bolada.

Vieram também as alunas de dona Flor, quase todas. Alunas e ex-alunas, unânimes no desejo de consolar a estimada e competente professora, tão boazinha, coitada! De três em três meses, sucediam-se as turmas nos cursos de culinária geral (pela manhã) e de culinária baiana (pela tarde), formavam-se em forno e fogão. Com diploma impresso e quadro de formatura exposto em loja da avenida Sete, desde uma turma antiga, à qual pertencera dona Oscarlinda, enfermeira de categoria, funcionária do Hospital Português, esbelta e esporreteada, doida por um enredo. Exigira diploma e quadro, movimentara as colegas, fizera uma agitação dos demônios, recolhera contribuições, arranjara desenhista de raça, pintara o sete, a enxerida. Assim pressionada dona Flor concordou, inclusive com o desenhista, um conhecido de dona Oscarlinda, não sem proclamar no entanto a competência de seu irmão Heitor – que desenhara o cartaz com o nome da escola, ainda na ladeira do Alvo – , infelizmente residindo agora em Nazaré das Farinhas. De qualquer maneira, sentira-se vaidosa ao ler, no diploma e no quadro de formatura, em grossas letras tipográficas:

E, logo abaixo, em caracteres floreados:

Vadinho, nos raros dias em que, acordando mais cedo, permanecia em casa, rondava as alunas, envolvendo-se nas aulas de culinária, perturbando-as. Reunidas em torno da professora, álacres e graciosas, elas anotavam as receitas, as quantidades exatas de camarão, de azeite de dendê, de coco ralado, uma pitada de pimenta-do-reino, aprendiam como tratar o peixe, como preparar a carne, como bater os ovos. Vadinho interrompia com uma piada sobre ovos, de duplo sentido, riam-se as descaradas.