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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 4)

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Assim fora durante o dia inteiro, desde a hora da notícia. Até dona Nancy, argentina retraída, nova na rua, casada com o dono da fábrica de cerâmicas, um arrevesado Bernabó, desceu de seu sobrado rico e de sua soberbia, para oferecer condolências e préstimos a dona Flor, revelando-se pessoa simpática e educada e trocando com dona Gisa filosóficas considerações sobre a brevidade da vida e sua insegurança.

Não tivera dona Flor, como se vê, tempo de refletir em seu novo estado e nas transformações de sua existência. Só quando trouxeram Vadinho do necrotério e o deixaram nu no leito de casal onde tantas e tantas vezes tinham feito o amor, então, e somente então, encontrou-se sozinha com a morte do marido e se sentiu viúva. Jamais voltaria ele a derrubá-la na cama de ferro, arrancando-lhe vestido e combinação, e as peças mais íntimas, atirando com o lençol para cima da penteadeira, tomando de cada detalhe de seu corpo, fazendo-a delirar.

Ah!, nunca mais, pensou dona Flor, e sentiu um nó na garganta, um tremor nas pernas, compreendeu então que tudo terminara. Ficou ali parada, sem palavras e sem lágrimas, despida de qualquer excitação, distante de toda a representação a cercar a morte. Apenas ela e o cadáver nu, ela e a definitiva ausência de Vadinho. Não ia mais ter de esperá-lo madrugada afora, nem de esconder de suas vistas o dinheiro pago pelas alunas, nem de vigiar suas relações com as mais bonitas, nem de apanhar dele nos dias de cachaça e mau humor, nem de ouvir os ácidos comentários dos vizinhos. Nem de rolar com ele na cama, abrindo-se toda para seu desejo, despindo-se da roupa, do lençol e do recato para a festa do amor, a inesquecível festa. O nó na garganta, estrangulando; uma dor no peito, aguda punhalada.

– Flor, não está na hora de vestir ele? – a voz de dona Norma ressoava urgente no quarto, vinda da sala. – Não tarda chegar visitas…

A viúva abriu a porta, agora estava séria, calada, sem soluços, sem gemidos, fria e austera. Sozinha no mundo. Os vizinhos entraram para ajudar. Seu Vivaldo, da funerária Paraíso em Flor, viera pessoalmente entregar o caixão barato – fizera considerável abatimento, era companheiro de Vadinho nas mesas de roleta e bacará onde jogava ataúdes e lápides – e colaborou com eficácia e experiência para fazer do boêmio um morto apresentável. Dona Flor a tudo assistiu sem uma palavra, sem uma lágrima, estava sozinha no mundo.

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O corpo de Vadinho foi depositado no caixão, levado para a sala de visitas onde haviam improvisado um estrado com as cadeiras. Seu Vivaldo trouxera flores, contribuição gratuita da funerária. Dona Gisa arrumou uma saudade-roxa entre os dedos cruzados de Vadinho. Seu Vivaldo considerou para si mesmo o absurdo do gesto: deviam colocar entre os dedos do morto uma ficha de jogo, isso sim. Uma ficha em vez da saudade-roxa, e se em lugar da música e dos risos do Carnaval se elevassem por ali perto o ruído das mesas da roleta, a voz rouquenha do crupiê, o soar das fichas, as nervosas exclamações dos jogadores, era bem possível ver-se Vadinho levantar do caixão, sacudir dos ombros sua morte, como sacudia, num gesto característico, as complicações a perseguirem-no, e encaminhar-se para depositar sua ficha no 17, seu número predileto. Que poderia ele fazer com uma saudade-roxa? Logo estaria murcha e fanada, nenhuma roleta a aceitaria.

Seu Vivaldo não se demorou; carnavalesco obstinado, só abrira a funerária naquele domingo de festa para atender a um amigo como Vadinho. Fosse outro o defunto, e se arranjasse como pudesse, não iria ele, Vivaldo, perturbar seu Carnaval.

Muitos perturbaram seus projetos de Carnaval. Foi um desfilar de gente noite adentro, na sentinela do boêmio. Alguns vieram por ser Vadinho descendente de ramo pobre e bastardo de uma família importante, os Guimarães. Um dos seus avoengos fora senador estadual e manda-chuva na política. Um tio seu, de apelido Chimbo, ocupara o posto de delegado auxiliar durante uns poucos meses. Esse tio, um dos raros Guimarães a reconhecer Vadinho como parente legítimo, foi quem lhe arranjou o emprego na prefeitura: fiscal de jardins, lugar dos mais modestos, ordenado mísero, não dava para uma noite gorda no Tabaris. Não é necessário ressaltar a completa negligência do jovem funcionário municipal: jamais fiscalizara jardim de nenhuma espécie, só aparecia na repartição para receber os magros caraminguás mensais. Ou para tentar o aval impossível do chefe, para morder os colegas em vinte ou cinqüenta mil-réis. Os jardins não lhe interessavam, não tinha tempo a perder com plantas e flores, podiam desaparecer todos os jardins da cidade, não lhe fariam falta. Ave noturna, seus canteiros eram as mesas de jogo, e suas flores, como bem considerara seu Vivaldo, as fichas e os baralhos.

Os que vieram por influência do nome dos Guimarães podiam-se contar nos dedos, vagos e apressados parentes. Todos os demais, aquele desfilar sem conta, vinham para despedir-se de Vadinho, para fitar mais uma vez sua face, sorrir para ele numa recordação agradável, dizer-lhe adeus. Porque gostavam dele, desculpavam-lhe as loucuras, valorizavam seu lado bom.

Um dos primeiros a chegar à noite, vestido a rigor, pois iria mais tarde levar as filhas, três moças de truz, ao baile de um grande clube, foi o comendador Celestino, português de nascimento, banqueiro e exportador. Não passara às carreiras, como quem cumpre fastidiosa obrigação. Demorara-se na sala, a conversar, recordando sucessos de Vadinho, após ter abraçado dona Flor e ter-lhe oferecido seus préstimos. De onde vinha sua estima pelo pequeno funcionário da prefeitura, pelo boêmio dos cabarés de segunda, pelo jogador sempre encalacrado?

Vadinho tinha lábia, que lábia! Certa vez arrancara a assinatura do próspero lusitano numa promissória de alguns contos de réis. Não esqueceu de pagar, pois jamais esquecia as datas de vencimento dos diversos títulos por ele firmados e espalhados em bancos e em mãos de agiotas. Não pôde pagar, o que era diferente. Em geral nunca podia pagar, e não pagava; no entanto a cada dia o número dos títulos aumentava, aumentava o número dos avalistas. Como ele o conseguia?

Celestino não voltara a avalizar, não caía duas vezes no mesmo conto. Soltava-lhe, no entanto, pelegas de cem, duzentos e até de quinhentos mil-réis, quando Vadinho lhe aparecia desesperado, sem tostão e com a certeza de ser aquele o seu dia de estourar a banca. Outros, porém, avalizavam duas e três vezes, como se fosse Vadinho o pagador mais correto, o de melhor cadastro bancário. Todos vencidos por suas manhas, sua conversa dramática e convincente.

O próprio Zé Sampaio, marido de dona Norma, estabelecido com loja de sapatos na Cidade Baixa, sujeito de conversa rara, casmurrão, pouco dado a visitas, a relações e intimidades com os vizinhos, o oposto da esposa, ele próprio fora enrolado por Vadinho algumas vezes e, apesar disso, não lhe retirara nem a estima nem o crédito na loja.

Nem mesmo quando descobriu a inacreditável sujeira: Vadinho, certa manhã, comprara fiado em seu estabelecimento vários pares de sapatos, dos mais finos e caros, e imediatamente os revendera, quase sob as vistas horrorizadas dos empregados de Sampaio, e por preço ínfimo, a uma loja rival recém-instalada nas imediações. A dinheiro batido – tratava-se de um Vadinho necessitado de urgente numerário para jogar no bicho.

O comerciante levou certamente em conta, ao pesar as responsabilidades do trapaceiro, determinadas atenuantes capazes de explicar e desculpar o deslize.

Um Vadinho alegre e despreocupado, naquela mesma tarde, contou-lhe ter sonhado durante toda a noite com dona Gisa, transformada em avestruz, a persegui-lo numa campina sem fim, não sabia exatamente se na intenção de vadiar com ele nos pastos verdes – era um avestruz fêmea e em seus olhos brilhava uma luz velhaca – ou se pretendia devorá-lo a bicadas, pois o perseguia com o enorme bico aberto e ameaçador. Acordava agoniado, sacudia o sonho fora, tentava dormir pensando em assunto mais ameno, e lá voltava a renitente professora a correr atrás dele com o olho libertino e o bico agressivo. Estivesse dona Gisa em seu cotidiano invólucro carnal, e Vadinho não fugiria, enfrentaria a parada, emprenharia o diabo da gringa em cima dos matos, com todo seu acento e seus conhecimentos de psicologia. Mas com ela vestida de penas, virada num avestruz descomunal, não lhe restava alternativa, além da vergonhosa retirada. Quatro, cinco vezes repetiu-se o pesadelo, e de manhã, cansado de tanto correr, banhado em suor, viu-se Vadinho com o palpite mais certeiro e sem tostão. Vasculhou a casa, dona Flor estava lisa, ele levara-lhe na véspera até as moedas. Saiu na esperança de morder uns conhecidos, a praça revelou-se fraquíssima, Vadinho andara abusando ultimamente de seu parco crédito. Foi quando, ao passar ante a Casa Stela, a bem sortida loja de Zé Sampaio, ocorreu-lhe a idéia luminosa e divertida de dedicar-se por breve prazo ao honesto negócio de sapataria, única maneira de obter rapidamente uns trocados.

Não houvesse empreendido a operação comercial, desonesta e desastrada na aparência, em verdade sutil e lucrativa, e jamais se perdoaria, pois deu o avestruz – dona Gisa não mentia nem em sonhos – e Vadinho cobrou um dinheiro alto. Agradecido e digno, procurou em seguida Zé Sampaio na loja e, ante os empregados atônitos, pagou-lhe o valor da mercadoria comprada pela manhã, comentou a rir o golpe primoroso e o convidou para um trago comemorativo. Zé Sampaio declinou do convite mas não se zangou com Vadinho, continuou a dar-se com ele e a vender-lhe sapatos com desconto e a prazo. Abatimento de dez por cento no valor da conta, crédito limitado a um par de sapatos em cada compra e só após ter sido liquidada a fatura anterior.