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Жоржи Амаду – Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа (страница 1)

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Jorge Amado

Dona Flor e Seus Dois Maridos História moral e de amor

© КАРО, 2025 Все права защищены

Nariz de cera de amigos e xeretas

Um fato se repete, constante e monótono, à publicação de cada novo romance do autor desta história de dona Flor e de seus dois maridos: há sempre um(a) cabotino(a) a meter-se na pele de algum personagem e a proclamar em altos gritos o escândalo, fazendo-o através das colunas dos jornais, com publicidade, brilho e ameaças ao romancista: bofetões, processo ou morte. Para impedir suceda o mesmo desta feita, o autor avisa a todos que nejansonnhum vivente aqui, nesta obra de ficção, se encontra retratado. Identidade de nome e sobrenome, de apelido, de profissão, de idade, de detalhes físicos ou morais, de feiúra ou de beleza, de celibato, matrimônio ou amigação, de cor de pele, de mistura de sangues, de virtudes e de vícios, de qualidades e defeitos, de tudo, enfim, sem exceção, terá sido a clássica, pura e simples coincidência, ocorrida à revelia do ficcionista. Quis ele fixar apenas aspectos do viver baiano e, em companhia dos leitores, sorrir à custa de certas ambições e certos hábitos da pequena burguesia definitivamente sem jeito, de quando em vez enternecido com essa ou aquela figura torta porém humana.

Eis por que qualquer parecença entre a realidade da vida e a realidade do romance – uma nascendo da outra e a recriando – é conseqüência de experiência e busca; mas, se por azar alguma semelhança existir entre pessoas vivas e personagens do romance, terá sido casual e inocente, por vezes divertida coincidência.

Assim, quando nas páginas das aventuras matrimoniais de dona Flor o leitor encontrar um(a) fulano(a) cujo nome, profissão e aspecto lhe recordem conhecido(a) com o mesmo nome, a mesma profissão e o mesmo aspecto, fica sabendo desde já: o(a) persona gem do romance não retrata seu conhecido(a), e qualquer semelhança entre eles não é culpa do autor e, sim, do tal sujeito(a) que anda por aí a parecer-se com figuras de romance como se isso fosse ocupação de gente séria. Mania de grandeza de certos tipos, doidos por se mostrar. Agora, com esta nota, fica tudo esclarecido e o assunto encerrado de uma vez. Ainda bem.

Sendo o autor, em matéria de culinária, apenas comilão, deve ele agradecer às suas boas amigas dona Carmem Dias, dona Dorothy Alves e dona Alda Ferraz, três mestras da grande arte, que forneceram receitas para a escola de dona Flor, algumas das quais reproduzidas no romance com os ingredientes precisos e as medidas justas, podendo assim servir a quem deseje utilizá-las para os petiscos suculentos – sem no entanto garantir o autor pelos resultados pois, para a arte culinária, não bastam os materiais e suas quantidades: sem o gênio dos temperos, sem a vocação dos molhos, sem a intuição do ponto exato, ninguém chega ao paladar de dona Flor.

Coisas de farmácia soube o autor pelos drs. Alberto Schmidt e Paulo Paternostro, ambos gentilíssimos, e aqui lhes agradece a ajuda cordial.

Agradece também ao maestro Carlos Veiga e à jovem musicista Ieda Machado. A ele pelas explicações sobre músicas e instrumentos e sobre a orquestra de amadores onde brilha seu pai ao violino, a ela por lhe ter, com graça e paciência, posto em intimidade com o fagote, preparando o autor para os aplaudidos solos do boticário Teodoro, cujos méritos de fagotista serão constatados no decorrer da história.

Ainda quer o autor agradecer a dona Edna Leal de Melo, diretora da Escola de Culinária Sabor e Arte, sita no número 5 do antigo Areal de Baixo, em Salvador, a autorização que, a rogo de dona Norma (a do romance ou a verdadeira, quem é que sabe?) lhe concedeu para dar à escola de dona Flor o mesmo saboroso nome da sua, tão conceituada – o nome e o renome. Ficou na ocasião sabendo o romancista ser primo segundo da mestra dos quitutes, provando-se assim como a vida é mais surpreendente do que qualquer romance em seus acasos e azares, sal da existência. Por fim agradece (em transe) ao poeta e magno guerreiro, inventor e navegante, astrofísico, eletrônico e vidente, ao pintor Cardoso e Silva, capitão do astral, piloto do mistério, amigo milenar: sem preconceitos, ele assessorou o materialismo do romancista no onírico e mediúnico universo, nos espaços siderais. Juntos foram, o autor e o múltiplo Cardoso, aos mundos conhecidos e desconhecidos; só em Marte estiveram umas quatro vezes.

Como se vê, não lhe bastando a própria experiência, recorreu o autor à erudição e gentileza de seus amigos, mestres em artes e milagres, para que dona Flor pudesse viver sua pequena vida nesta cidade mágica da Bahia, de onde se data este romance, escrito nos anos de 65 e 66. Entre as chuvas do inverno e a doce brisa do verão, respeitando-se os preceitos e as quizilas de Oxóssi e de Xangô.

Bilhete recente de dona Flor ao romancista

Caro amigo Jorge Amado,

o bolo de puba que eu faço não tem receita, a bem dizer. Tomei explicação com dona Alda, mulher de seu Renato do museu, e aprendi fazendo, quebrando a cabeça até encontrar o ponto. (Não foi amando que aprendi a amar, não foi vivendo que aprendi a viver?)

Vinte bolinhos de massa puba ou mais, conforme o tamanho que se quiser. Aconselho dona Zélia a fazer grande de uma vez, pois de bolo de puba todos gostam e pedem mais. Até eles dois, tão diferentes, só nisso combinando: doidos por bolo de puba ou carimã. Por outra coisa também? Me deixe em paz, seu Jorge, não me arrelie nem fale nisso. Açúcar, sal, queijo ralado, manteiga, leite de coco, o fino e o grosso, dos dois se necessita. (Me diga o senhor, que escreve nas gazetas: por que se há de precisar sempre de dois amores, por que um só não basta ao coração da gente?) As quantidades, ao gosto da pessoa, cada um tem seu paladar, prefere mais doce ou mais salgado, não é mesmo? A mistura bem ralinha. Forno quente.

Esperando ter lhe atendido, seu Jorge, aqui está a receita que nem receita é, apenas um recado. Prove o bolo que vai junto, se gostar mande dizer. Como vão todos os seus? Aqui em casa, todos bem. Compramos mais uma cota da farmácia, tomamos casa para o veraneio em Itaparica, é muito chique. O mais, que o senhor sabe, naquilo mesmo, não tem conserto quem é torto. Minhas madrugadas, nem lhe conto, seria falta de respeito. Mas de fato e lei quem acende a barra do dia por cima do mar é esta sua servidora, Florípedes Paiva Madureira ou dona Flor dos Guimarães.

( bilhete recente de dona Flor ao romancista )

Esotérica e comovente HISTÓRIA VIVIDA por DONA FLOR, emérita professora de arte culinária, e seus dois maridos – o primeiro, vadinho de apelido; de nome dr. Teodoro Madureira, e farmacêutico, o segundo ou a espantosa batalha entre o espírito e a matéria

Narrada por Jorge Amado escriba público estabelecido no bairro do rio vermelho, na cidade do salvador da bahia de todos os santos, ñas vizinhanças do largo de santana, onde habita iemanjá, senhora das águas.

Para Zélia, na tarde quieta de jardim e gatos, na cálida ternura deste abril; para João e Paloma, na manhã das primeiras leituras e dos primeiros sonhos.

Para minha comadre Norma dos Guimarães Sampaio, acidentalmente personagem, cuja presença honra e ilustra estas pálidas letras.

Para Beatriz Costa, de quem Vadinho foi sincero admirador.

Para Eneida, que teve o privilégio de ouvir o Hino Nacional executado ao fagote pelo dr. Teodoro Madureira.

Para Giovanna Bonino, que possui um óleo do pintor José de Dome – retrato de dona Flor adolescente, em ocres e amarelos.

Quatro amigas aqui juntas no afeto do autor.

Para Diaulas Riedel e Luiz Monteiro.

Deus é gordo

(revelação de Vadinho ao retornar)

A terra é azul

(confirmou Gagarin após o primeiro vôo espacial)

Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar

(dístico na parede da farmácia do dr. Teodoro Madureira)

Ai! (suspirou dona Flor)

Capítulo I

Da morte de Vadinho, primeiro marido de dona Flor, do velório e do enterro de seu corpo

(ao cavaquinho o sublime Carlinhos Mascarenhas)

Escola de culinária sabor e arte Quando e o que servir em velório de defunto

(resposta de dona Flor à pergunta de uma aluna)

Nem por ser desordenado dia de lamentação, tristeza e choro, nem por isso se deve deixar o velório correr em brancas nuvens. Se a dona da casa, em soluços e em desmaio, fora de si, envolta em dor, ou morta no caixão, se ela não puder, um parente ou pessoa amiga se encarregue então de atender à sentinela pois não se vai largar no alvéu, sem de comer nem de beber, os coitados noite adentro solidários; por vezes sendo inverno e frio.

Para que uma sentinela se anime e realmente honre o defunto presidi-la e lhe faça leve a primeira e confusa noite de sua morte, é necessário atendê-la com solicitude, cuidando-lhe da moral e do apetite.

Quando e o que oferecer?

Pois a noite inteira, do começo ao fim. Café é indispensável e o tempo todo, café pequeno, é claro. Café completo com leite, pão, manteiga, queijo, uns biscoitinhos, alguns bolos de aipim ou carimã, fatias de cuscuz com ovos estrelados, isso, só de manhã e para quem atravessou ali a madrugada. O melhor é manter a água na chaleira para não faltar café; sempre está chegando gente. Bolachas e biscoitos acompanham o cafezinho; uma vez por outra uma bandeja com salgados, podendo ser sanduíches de queijo, presunto, mortadela, coisas simples pois de consumição já basta e sobra com o defunto.